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Especial/Pandemia

Eu tive Covid. Quando vou ficar bem?

Em busca das respostas, Ellen Genaro, em matéria especial para o DD, ouviu pacientes e médicos

A médica Maria Luiza Negrelli durante entrevista à Ellen Genaro (Foto: Divulgação)

Aliviados por ter tido sintomas leves sem necessidade de internação, muitos pacientes comemoram que a COVID apenas exigiu cuidados  e  isolamento em casa para evitar o contágio. Febre, dores musculares e de cabeça, prostração foram os sintomas iniciais.  Porém passadas as duas semanas, os pacientes começam a perceber e se indagar: quem dera a covid fosse apenas isso.

Passados o susto e os primeiros sintomas, começam a emergir novos desconfortos físicos e biológicos. A sensação é de que a cura nunca vai chegar. Essa pergunta eu mesma faço a meu corpo e aos médicos, afinal “quando vou ficar bem?”.  

Há um mês do fim da infecção pelo SaRsCOV-2 mais uma bateria de exames e constantes visitas a médicos me motivaram a trazer a você leitor do Diário Digital mais informações e pesquisas atuais. Fui em busca destas respostas e ouvi pacientes e três médicos especialistas de diferentes áreas da medicina que cuidam desses intermináveis pós.

(Foto: Divulgação)

 Certo de que, em no máximo duas a três semanas estaria bem , todos integrantes da família de Linara Versoza da Silva de 29 anos mesmo após um mês da infecção, ainda continua enfrentando as sequelas. Apenas Maria de 11 anos parece estar livre dos resquícios da doença. Nesta foto todos tiveram COVID. 

E relatam esquecimentos, tosse, dores nas pernas. O irmão de Linara com 27 anos perdeu 11 quilos, ainda se queixa de dores de cabeça, cansaço e diarreias frequentes.  Ao procurar posto de saúde são informados pelos médicos que é comum, retornam das consultas descrentes de quando os sintomas vão definitivamente passar. Eles ficaram doentes no início de abril e estão buscando orientações médicas para se recuperar .

“Vamos procurar médicos no particular, no posto falaram que era normal, eu me sinto bem só com tosse e dores nas pernas. Minha mãe  (60 anos) que ficou internada está com dificuldade motora, muito cansaço e pálida", diz Linara

Eles são os portadores dos sintomas prolongados pós-infecção pelo SaRsCOV-2.   Os chamados “long haulers  ou longo tempo. “São pacientes, em sua maioria, jovens e sem comorbidades, que apresentaram um quadro sintomático de COVID-19, mas que, como foi orientado aos casos leves e sem sinais de gravidade, permaneceram em suas casas aguardando a melhora que nunca chegou,” define a reumatologista Maria Luzia Negrelli.

Reumatologista Maria Luzia Negrelli (Foto: Ellen Genaro)

A médica cita uma pesquisa baseada em inúmeros relatos e desabafos de pacientes que se multiplicaram nas mídias sociais, as pessoas começaram a criar grupos de pós-covid para trocar essas sensações e convalescências causadas por sintomas prolongados comuns mesmo após semanas de ter ficado doente. Foi então que as pesquisas médicas começaram a olhar para este paciente “long hauler” .

Crédito: @sindrome_pos_covid

Os dados revelam que a Covid longa atinge 80% dos pacientes infetados tiveram um ou dois sintomas longos após a doença. A pesquisa que reuniu mais de 18 mil publicações no mundo todo datadas até 1 janeiro de 2021 e baseada nos relatos de pacientes de 17 a 87 anos . Os cinco sintomas foram fadiga (58%), dores de cabeça (44%), desordens na atenção e memória (27%), perda de cabelo (25%), falta de ar e apertos no tórax 24% (fonte: Medrxiv).

No geral já foram identificados mais de 50 sintomas de longo tempo. Um deles não tão comum é a alteração na tireoide responsável pela produção de hormônios.

“É comum a tireoidite, uma inflamação aguda da glândula.  A covid pode alterar as taxas e ainda reduzir ou aumentar as glândulas. Faz funcionar demais resultando em um hipertireoidismo ou funcionar de menos com o hipotiroidismo. Explica a cirurgiã de cabeça e pescoço Dra. Bruna Minari. 

“Essas disfunções foram identificadas até 3 meses após a doença, é necessário fazer exames constantes porque a alteração na tireoide pode provocar cansaço, fadiga, queda de cabelo e até alteração menstrual.” Acrescenta.

Doutora Bruna Minari – Cirurgiã de cabeça e pescoço

Só a fadiga provoca uma sensação de baixa energia, que piora com o mínimo de atividade física acaba limitando o paciente nas atividades de trabalho, estudo e lazer.  A memória e atenção também são prejudicadas com atividades mentais. 

O que dizer então ao paciente com sintomas persistentes pós covid? “Poderíamos dizer que não temos como fazer promessas e que ainda não temos todas as repostas, mas que estaremos com eles durante toda a sua jornada”. Acrescenta Maria Luiza, reumatologista.

Pós-Covid pelo Sus - Pacientes que apresentam alguma sequela provocada pela Covid-19, seja ela leve, moderada ou grave, têm acesso a atendimento gratuito pelo SUS em Campo Grande. O município dispõe de dois serviços para atender esses casos em funcionamento.

O primeiro criado em setembro do ano passado em parceria com a APAE (Centro Especializado de Reabilitação CER/APAE) e o segundo gerido exclusivamente pelo município na Unidade Especializada em Reabilitação e Diagnóstico (UERD), inaugurado no final de janeiro deste ano.

Ambos os serviços são regulados pelo município, ou seja, os pacientes entram em uma "fila" e são encaminhados para o atendimento mais adequado.

Em sete meses de funcionamento, o ambulatório pós-Covid CER/APAE já realizou o acompanhamento de 300 pacientes que tiveram alguma complicação provocada pela Covid-19, sendo realizados mais de 10 mil procedimentos, incluindo consultas com os especialistas, procedimentos de fisioterapias, entre outros. O ambulatório pós-Covid da UERD já atendeu 434 pacientes.

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