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Amizade

Morador de rua e cadelinha comovem corações na Capital

Paulo e Biani cuidam um do outro nas ruas da Capital e suas histórias são prova de amizade verdadeira

Paulo demonstra carinho pelo companheirismo de Biani (Foto: Marco Miatelo)

Paulo Henrique Ernica, de 48 anos, vive nas ruas de Campo Grande (MS) desde 2014. Porém, uma atitude percebida recentemente comoveu corações na Capital. Usando um pedaço de pano, ele fez uma cabaninha para abrigar a cadelinha Bianinha, sua fiel companheira há cinco anos.

A mascote entrou na vida em um período de desânimo e tristeza. Paulo a encontrou na Avenida Guaicurus quando ela tinha apenas 1 ano, aproximadamente. Desde então, a dupla é inseparável.

Paulo nasceu em Araçatuba (SP) e veio para Mato Grosso do Sul, em 2014, na Copa do Mundo realizada no Brasil a convite de um amigo. O viajante ficou um tempo em Bonito (MS) e depois se mudou para Campo Grande, onde vive até hoje.

Paulo e Biani se divertem juntos (Foto: Marco Miatelo)

Paulo é artista plástico, estudou no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo mas não chegou a se formar e também já foi professor de natação e tatuador em um estúdio de Presidente Prudente (SP). Quando chegou à Capital, o Centro de Triagem e Encaminhamento do Migrante e População de Rua (CETREMI) levou seus pertences e suas artes, assim, Paulo entrou em depressão e foi parar nas ruas.

A chegada de Biani foi fundamental para levantar o astral. Quando a encontrou, ela era chamada de 'chorona' por populares. Paulo a levou ao veterinário para tratar a doença do carrapato e depois, quando ela já estava bem, não teve coragem de abandoná-la, passando a cuidar de sua amiga.

O nome curioso da cadelinha vem da frase italiana "vieni qui con papà, piagnucolone", que em português significa "vem aqui com o papai chorona". Com o tempo ela começou a atender como "Biani", que é a pronúncia de uma parte da palavra "chorona" em italiano.

Biani deu novo sentido para a vida de Paulo (Foto: Marco Miatelo)

"Ela é minha salvadora amiga, psicóloga, terapeuta, meu tudo", diz Paulo olhando com carinho para Biani.

Cuidado e esperança - Os dois vivem na rotatória da Avenida Zahran com a Costa e Silva, dormindo do lado de fora da "Recuperadora Magrão", em frente ao cruzamento. Ele tenta, com o pouco que ganha nas ruas, juntar um dinheiro para comprar ração para Biani e faz o melhor que pode para dar conforto, improvisando uma tendinha para protegê-la do sol e da chuva.

"Eu não abandono. Ela não me abandona, eu não vou desprezar tudo que ela faz por mim abandonando-a. Eu queria poder dar tudo que ela merece, o que eu faço por ela não é nem uma gota do que ela faz por mim", expressa ele com emoção nos olhos.

Paulo quer voltar para São Paulo (SP) quando estiver em uma melhor condição de vida e levará a amiga com ele. Quando voltar, deseja ver o filho, que mantém contato com Paulo pelo telefone, mas não se encontra com o pai há 9 anos.

Valores - Paulo não reclama, diz que não nasceu pra viver na situação de rua. Porém, se ele está ali no momento é porque Deus quer mostrar algo, fazer com que ele aprenda alguma coisa. O artista das ruas pede a Deus que cuide de sua família, que está longe, e para ele apenas um pouco de saúde.

"Eu aprendi mais na rua do que na escola e na universidade, coisas que não tem preço. Aprendi a dar valor para as pequenas coisas , à natureza e aos animais. A tratar bem aqueles que me ignoram ou maltratam, porque a pessoa não está bem, então mesmo assim eu trato como gostaria de ser tratado".

Apesar de ter condições para alugar um quartinho, Paulo prefere as ruas, porque a maioria dos lugares não aceitam Biani. Ele não quer dormir no quentinho enquanto ela está para o lado de fora.

Paulo cuida de sua companheira enquanto ganham a vida nas ruas (Foto: Marco Miatelo)

Solidariedade - É com a ajuda de amigos e pessoas solidárias que os dois enfrentam as ruas. Os colegas do "Fuminho Auto Peças", próximo ao cruzamento, lhes dão café da manhã e um dinheirinho para a ração.

Pessoas como o casal João e Emma Valdes, do Bairro Vila Adelina, na Grande Pioneira, param em meio ao trânsito agitado e ajudam Paulo como podem.

João conta que quando a esposa estava doente, amigos fizeram um almoço beneficente para ajudar a família e parte do que arrecadaram eles distribuem para pessoas nas ruas, famílias carentes e imigrantes.

João ajuda Paulo com um almoço (Foto: Marco Miatelo)

Ajuda - Quando questionado se precisa de alguma coisa, o morador de rua, com muita humildade, responde que está bem. Sua preocupação é com Biani.

Quando a cachorrinha foi castrada, passou por complicações e chegou a refazer a cirurgia, ficando com um problema na bexiga, que é comprimida quando ela deita para dormir e a faz urinar sem controle. Ele pede fraldas para que eles possam passar noites de sono mais tranquilas.

Quem quiser ajudar Paulo, pode procurá-lo no cruzamento da Avenida Zahran com a Costa e Silva ou deixar doações com os amigos na "Fuminho Auto Peças", na rua Dr. Pacífico Lopes Siqueira, 24 - Jardim América.