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Inovações em tempos de crise

Indústrias da Capital fabricam biossegurança contra pandemia

Empresas adaptaram suas linhas de produção para fabricar peças ou insumos contra a Covid-19

Lava-pés feito com sobras de alumínio entrou para a linha de produção da Alumix (Foto: Marco Miatelo)

Na tradicional linha de produção de portas e janelas de alumínio, surge um recipiente nunca antes visto no local, um lava-pés. Na engrenagem que deveria envasar o refrigerante colorido, as garrafas saem cheias de álcool 70°GL.

Os cenários descritos acima são as realidades de duas indústrias de Campo Grande (MS) e surgiram devido a um dos acontecimentos mais traumáticos na história da humanidade, a pandemia do novo coronavírus.

Logo nos primeiros meses da crise em 2020, a Alumix e a Cervejaria Campo Grande decidiram usar as fábricas para enfrentar a Covid-19, produzindo proteção contra a doença. Ambas mantêm a nova missão até os dias atuais, como constatou a reportagem.

A Alumix fabrica esquadrias especiais em Campo Grande há 21 anos, mas foi com uma bandeja de desenho simples que a empresa virou notícia por produzir uma ferramenta contra a pandemia.

A bandeja que recebeu nome de lava-pés nasceu no Setor de Inovação da empresa. Ela foi criada para que as pessoas higienizem a sola dos calçados e rapidamente conquistou mercado entrando para o rol de produtos de casa.

Além de proporcionar biossegurança contra a Covid-19, a peça cumpre outra importante função, a de colaborar com o meio ambiente.

O lava-pés é uma bandeja quadrada (40 cm x 40 cm) feita com pedaços de alumínio que sobram da fabricação das portas e janelas. No recipiente, é possível colocar água sanitária, álcool ou outros produtos de higienização.

Assim, os colaboradores podem limpar seus calçados, garantindo a biossegurança do ambiente coletivo. “Os compradores são os mais diversos, escritórios, escolas, empresas, residências e outros”, relata o proprietário da Alumix Eduardo Henn.

Dentro da Alumix, a regra da casa é usar até as migalhas do alumínio de modo que o descarte de material seja o menor possível. O alumínio é um material composto não sendo possível reciclar, por isso, ele pode se tornar um problema ambiental.

 

“Aí entra o Setor de Inovação. Nós criamos novos produtos a partir das sobras”, afirma o arquiteto Danilo Yamada de Araújo, responsável pelo setor.

A busca por inovação fez surgir o ambiente fértil para o nascimento do lava-pés, peça útil no momento oportuno. A chegada do novo produto não criou qualquer ônus na fábrica. Bastou apenas organizar a produção para atender as encomendas.

Na mesma fábrica, foram concebidos também suportes para jardins verticais e ainda quadros com belos desenhos em mosaico, obras de Danilo Yamada.

O arquiteto está se tornando um verdadeiro artista do reaproveitamento dos pedaços de ACM (composto do alumínio) que sobram da fabricação das portas e janelas.

“O alumínio gasta bastante energia para ser produzido. Então, fazemos um esforço para usar a matéria prima até o final, com isso, estamos descobrindo novas possibilidades”, enaltece, exibindo os quadros de sua autoria, nos quais desenha animais ao gosto dos clientes que já encomendaram de araras a raposas.

Envasando biossegurança – A Cervejaria Campo Grande que produz cervejas e refrigerantes, do grupo RFK, iniciou seu inédito ciclo de envasamento de álcool em Março de 2020.

Cervejaria se mantém firme em sua nova missão de produzir álcool para abastecer hospitais e mercados (Foto: Divulgação)

Inicialmente, a aposta era de que a pandemia passaria em poucos meses. Porém, ela ainda não foi embora e nem a cervejaria abandonou sua nova missão, mantendo o serviço até os dias atuais.

“Continuamos esse trabalho porque a pandemia não cessou. Não tivemos prejuízos e nem ganhos financeiros. Produzir álcool não é o nosso negócio, mas eu diria que cumprimos com nossa responsabilidade social”, afirma Júnior Avesani, diretor-comercial da cervejaria.

A indústria tornou-se muito importante para suprir a demanda por álcool do Poder Público e do mercado local. Vale mencionar que o envasamento de álcool pela cervejaria é feito com autorização judicial tendo em vista a situação de emergência.

Álcool recebe água desinfetada através de luz ultra-violeta (Foto: Divulgação)

A cervejaria começou envasando o álcool doado pelas usinas a pedido do Poder Público que precisava abastecer os hospitais e unidades de saúde. Na ocasião, o produto era do tipo 96% e foi preciso homogeneizar para deixa-lo 70%, o mais adequado para o combate ao coronavírus.

O álcool recebeu água desinfetada através de luz ultra-violeta -- sistema que já existe na fábrica e purifica cinco mil litros de água por hora. Além de envasar, a indústria também cedeu as garrafas pet, tampas e rótulos sem custos para o Poder Público.

Em segundo momento, a empresa passou a comprar o produto das usinas, envasar e entregar ao mercado local que estava carente do produto. “Não se tinha álcool nos mercados ou farmácias, então continuamos envasando e entregando com um preço justo para suprir a demanda”, diz Avesani

Indústria organizou turnos de trabalho para envasar álcool, sem parar a produção de cerveja e refrigerante (Foto: Divulgação)

A empresa não revela dados atuais do envasamento. Contudo, no início, produzia cerca de 40 mil litros de álcool 70°GL, envasados em 80 mil embalagens de 500 ml por dia.

A indústria não paralisou ou reduziu a produção de cerveja e refrigerantes, mas precisou reorganizar os turnos de trabalho para engarrafar o álcool.

Como o produto é inflamável, o limite de envasamento é de 50 mil litros por dia. O processo é controlado pelo Corpo de Bombeiros que mantém vigilância e caminhões de combate a incêndio a postos para evitar possíveis acidentes.

Como produto é inflamável, fábrica respeita limite de envasamento que é monitorado pelos bombeiros (Foto: Divulgação)

Inteligência artificial contra a pandemia – Outra iniciativa industrial que chamou a atenção em meio à pandemia surgiu dentro da Suzano, uma gigante da celulose, que mantém fábricas em Três Lagoas (MS).  

Neste caso, o diferencial ocorreu no cuidado com os trabalhadores. A empresa lançou mão de estratégias de inteligência artificial e soluções de automação para proteger seus colaboradores do coronavírus.

“Por exemplo, implantamos o sistema que possibilita a inspeção de equipamentos por imagem em tempo real e de forma remota, sem a necessidade presencial do técnico na fábrica”, revela Eduardo Ferraz, gerente executivo da unidade da Suzano, em Três Lagoas.

Manutenção de equipamentos não necessita dos técnicos na fábrica (Foto: Divulgação)

A Suzano tem salas voltadas exclusivamente para o gerenciamento de todas as máquinas em operação nas
fábricas e para o desenvolvimento de soluções baseadas em inteligência artificial.

"São máquinas analisando e gerando dados e soluções para outras máquinas", ressalta o gerente executivo.

Os investimentos em tecnologias voltados para as operações industriais também garantiram a adoção de ações remotas e, consequentemente, o maior isolamento social para colaboradores, principalmente aqueles que pertencem ao grupo de risco.

Salas de gerenciamento das máquinas e desenvolvimento de inteligência artificial da Suzano (Foto: Divulgação)

Na Suzano, a inteligência artificial está avançando a tal ponto que vai avisar a empresa em caso de sinais de cansaço e outros desvios de atenção em motoristas que atuam no transporte de madeira em MS.

As 'Câmeras de Fadiga', como são chamadas, são instaladas dentro das cabines dos caminhões e têm sensores que captam, em tempo real, sinais de cansaço, sonolência, uso de celulares e outras distrações.

Outras medidas adotadas para proteger os trabalhadores durante a pandemia foram a medição de temperaturas, instalação de barreiras físicas (divisórias em acrílico) entre os postos de trabalho, limitação a 50% no número de colaboradores transportados nos veículos da empresa, entre outras.

Suzano colocou em práticas medidas de biossegurança (Foto: Divulgação)

Máquinas que não podem parar - Assim como na Alumix e na Cervejaria Campo Grande, as linhas de produção da Suzano também geram um produto essencial no combate ao novo coronavírus.

"Neste período, houve crescimento nos mercados doméstico e externo por itens como papeis sanitários (tissue), o que aumentou a demanda por celulose. Por isso, a continuidade de nossas operações foi e continua sendo essencial", diz o gerente.

Assim, a empresa mantem suas operações e entrega matéria prima importante para a biossegurança em tempos de pandemia.

"Tivemos de nos reinventar para continuar produzindo nossa celulose, produto essencial e presente na vida de 2 bilhões de pessoas na forma de embalagens, papel higiênico, fraldas e outros produtos absorventes, nas receitas médicas, etc", detalha Eduardo Ferraz.

A continuidade da produção ajudou também a economia local. “Ao seguirmos com nossas operações, mantivemos os mais de 6 mil postos de trabalho na região, entre diretos e indiretos. Além disso, seguimos com a contratação de bens e serviços de empresas da região”, destaca.

No vídeo abaixo, Eduardo Ferraz detalha a importância da produção da Suzano para a economia local e nacional. Confira:

Prosseguindo na crise - Desde que a pandemia deu sinais em Mato Grosso do Sul, as entidades ligadas à indústria se organizaram para orientar o setor, tanto do ponto de vista de biossegurança quanto do financeiro.

A Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (FIEMS) esteve à frente de mobilizações pela sobrevivência das fábricas e manutenção dos postos de trabalho.  

De início, foram divulgadas orientações para manter as empresas em funcionamento com biossegurança e preservada do ponto de vista administrativo.

No quadro abaixo, estão elencadas dicas preciosas que servem para qualquer tempo, inclusive, os de incertezas como de uma pandemia:

Fonte: Fiems (Fotos: Marco Miatelo)

Vale mencionar que o setor industrial atravessou a crise respondendo por parcela significativa da empregabilidade no Estado. Nas indústrias estão 24,9% dos trabalhadores com carteira assinada em MS.

O último dado do Radar Industrial FIEMS, divulgado em Agosto, apontou para 139.770 pessoas empregadas no setor. Ademais, no primeiro semestre de 2021, as indústrias contrataram mais do que demitiram. Foram 35.625 admissões contra 29.186 dispensas.

Consultorias e ferramentas on-line - Em relação à biossegurança do ambiente produtivo, a FIEMS atua, através do Serviço Social da Indústria, o SESI, oferecendo consultorias especializadas e ainda lançou uma plataforma para diagnóstico de maturidade em biossegurança.

O procedimento para a realização do mencionado diagnóstico é fácil, basta entrar na plataforma e responder a um questionário on-line sobre quais medidas de biossegurança estão implantadas no estabelecimento.

Entre exemplos estão: uso de equipamentos de proteção, identificação e acompanhamento de casos suspeitos em colaboradores, testagem dos funcionários, entre outros.  A ferramenta é gratuita e está disponível pelo site: https://www.diagnosticosst.sesims.com.br/.

Em relação às consultorias, o SESI aponta que de Janeiro a Agosto deste ano, 2.099 empresas receberam o atendimento. São oferecidas três cargas horárias diferentes de seis, 16 e 19 horas. A maior delas é a Consultoria Cidade Empreendedor Seguro.

Dentro da consultoria maior, destinada a micro e pequenas empresas, o SESI mantém cinco ações estratégicas de saúde e segurança no combate à Covid-19 com atendimentos até Dezembro de 2021.

São elas: incentivar a imunização contra a gripe nas empresas participantes, para facilitar a diferenciação do diagnóstico de Covid-19; testagem nos municípios participantes em drives; entrega de diagnóstico de fatores de riscos relacionados ao trabalho; atendimentos mensais para entregar documentação necessária ao combate da Covid-19 e Selo Empresa Segura.

No quadro abaixo, estão elencadas medidas de biossegurança que o SESI orienta as empresas a manterem apesar do avanço da vacinação:

Fonte: SESI-MS (Fotos: Divulgação)

A ergonomista de gestão em saúde e segurança do SESI, Priscilla Bueno, reforça que a vacinação não é considerada uma condição de retorno às atividades sem os protocolos de biossegurança. Por isso, todas as medidas de proteção devem ser mantidas.

No vídeo abaixo, ela fala sobre o trabalho do SESI junto às industrias durante a pandemia e reforça a importância da manutenção das medidas preventivas.

Serviços:

1 - A Alumix fica localizada na Rua Hélio Castro Maia, 199 - Jardim Paulista, Campo Grande. O telefone é (67) 3029-3104

2 - A Cervejaria Campo Grande fica na Rua Eng. Annes Salim Saad, 59. Pq. Ind. do Oeste, Campo Grande. O telefone é (67) 3355-0021.

3 - A Suzano fica na Rodovia BR-158, Km 298 Zona Rural - Fazenda Barra Do Moeda Três Lagoas/MS. Telefone:
(11) 3503-9784.

4 - A FIEMS fica na Av.Afonso Pena, 1206 Bairro Amambaí / Campo Grande - MS . Telefone: (67) 3389-9000.

5 - O SESI funciona no prédio da FIEMS. O telefone é (67) 3389-9236.

Imagens que entrarão para a história da humanidade: a produção Industrial em tempos de Pandemia:

Cervejaria Campo Grande e sua produção de álcool:

Alumix, a indústria de esquadrias que criou um lava-pés com sobras de alumínio:

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