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Pantanal

Empresária resgata cultura pantaneira em loja tradicional da moda equestre

Depois de uma tragédia, Roberta se encontrou no Pantanal e acredita na força da mulher pantaneira

Empresária se encontrou como mulher pantaneira – (Foto: Luciano Muta)

Resgate à cultura verdadeiramente pantaneira, esse é o objetivo de Roberta Andrade Machado Borges, 46, ao trazer à Campo Grande a loja de roupas e acessórios equestres, San Steban. “A cultura do tradicional, do rural é mais tranquila, mais para o lado do conforto, tanto que nas nossas peças eu retratei a cultura do sul-mato-grossense”, explica.

A empresária é de Campo Grande, porém, sempre foi apaixonada pelo Pantanal. Na San Steban, os clientes encontram desde peças femininas voltadas para o meio equestre, como calças montarias, botas e roupas em couro, até louças com estampas do meio, mochilas e mais.

A loja é recente, aberta há cerca de um mês, porém a história com o Pantanal é de longa data. A empresária, que também é médica veterinária, ouvia os relatos do ex-marido, falecido dez anos atrás quando foi atingido por um raio em uma fazenda e com quem ficou casada por 12 anos, sobre o local. Ela conta que o ex-companheiro era de comitivas pantaneiras e sempre lhe contava as vivências no Pantanal.

Ela lembra que o sonho do ex-marido era levar a filha, Anna Andrade Correa, para conhecer o lugar onde tanto amava. O pai fazia os planos quando a menina era apenas um bebê, porém, não teve chance de levá-la ao Pantanal. “Ele tinha uma coisa com o Pantanal, falava que ia levá-la para ela conhecer araras, tuiuiús, toda a natureza. Mas ele faleceu muito repentinamente e eu conheci o Ayrton, meu atual marido, que, por coincidência é um homem pantaneiro”, conta.

Ayrton Bacchi de Araújo Netto, de 57 anos, é pecuarista e vive no local há mais de quatro décadas. Roberta esclarece que o marido é de família vinda de Sidrolândia, porém se considera pantaneiro pelo tempo em que a família vive lá. “Meu marido e a família dele estão no Pantanal há mais de 40 anos, mas não nasceram lá. Tem essa cultura de que o homem pantaneiro é pantaneiro porque vive naquele meio há muito tempo, mas eles [família de Ayrton] são de famílias fundadoras de Sidrolândia”, relata.

Roberta explica que herdou as raízes campestres do pai, um proprietário de terras e que a ensinou a valentia e determinação que demonstra em suas falas e gestos e que carregou consigo ao longo de sua vida. A coragem é tanta que mesmo após o falecimento do seu ex-marido juntou forças e começou a produzir queijos artesanais para venda.

“Eu fazia cerca de 200 queijos por dia para vender”, relembra. Ela manifesta que a produção de queijo é muito presente na cultura pantaneira e que é algo que herda desde criança em sua família campo-grandense. “Na minha família inteira as mulheres criaram os filhos e adquiriram as coisas através do queijo. E é uma coisa que está se perdendo”, lamenta.

Com os anos de experiência e a alta produtividade, as técnicas começaram a ser desenvolvidas. O queijo produzido com apenas dois litros de leite é coado em uma meia fina de pano. Ela conta que é o melhor jeito de filtrar e separar o soro, especialmente porque os pedaços não passam pelo filtro. “Se você for em algum lugar e ver alguém escorrendo o queijo em uma meia três quartos, eu quem ensinei”, brinca.

A pretensão da médica veterinária é transformar essa produção em um curso de queijos. Ela conta que foi chamada pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) para ministrar aulas sobre a produção do alimento, porém explica que seu planejamento seria de atender as mulheres assentadas em suas propriedades, para ensiná-las dentro da realidade delas, com os materiais disponíveis para cada uma.

O curso ainda não foi efetuado porque a proposta do Serviço foi diferente e a empresária ainda pretende aprimorar a programação, esclarece. “Eu tenho essa ação como um dever moral e ainda tenho vontade de fazer isso. Quem tiver vontade de aprender, eu quero levar isso como uma forma itinerante. A produção de queijos paga a faculdade de filho, sustenta famílias”, enfatiza.

Durante conversa, Roberta conta que trabalha com um peão pantaneiro de verdade, e que é com ele as histórias e costumes do local também se mantém vivos. Benedito Jorge de Aquino Gonçalves, 67, nasceu e foi criado em terras pantaneiras. Trabalha com a empresária a cinco anos e a conheceu através do sogro dela, Fernando Cesar Bacchi, em razão de ter sido funcionário do homem na fazenda da família, próxima a Rio Verde de Mato Grosso.

Com sotaque carregado do interior, Jorge, como prefere ser chamado, conta que presenciou histórias inimagináveis no local. Ele relata que, uma vez, quase foi atingido por um raio quando viajava em uma mula. "Eu estava em comitiva e estava um calor igual o que está aqui em Campo Grande. Então você pensa. Aí começou a se formar uma nuvem de chuva, mas seguimos viagem. De repente cai um raio e atinge a minha mula. Ela caiu dura no chão, morreu na hora. Eu por sorte não fui atingido. O peão que estava comigo achou que eu tivesse morrido. Ele pensou que eu era só um espírito. Aí ele saiu correndo e eu tive que sentar na mula morta e esperar alguém passar", disse.

Jorge conta histórias pantaneiras - (Foto: Luciano Muta)

Atualmente, o peão mora na Capital, porém sonha em voltar para o Pantanal. "Temos que prender ele aqui, porque senão ele volta para o Pantanal. E não dá mais, por causa da idade, é perigoso", diz Roberta. A empresária explica que os filhos de Jorge, um casal, não querem que o pai volta para lá, por conta do trabalho pesado que ele faria.

O peão garante que sente falta do local, mas acredita que os verdadeiros costumes pantaneiros estão se perdendo. "Eu acho que os pais não passam muito para os filhos as tradições das fazendas. Então não é mais como antes. Hoje em dia quase não para gente nas fazendas, não tem mais aqueles três dias de festa que tinha, nem a amizade entre os patrões e funcionários. Antes a gente chegava lá e era muito bem recebido, ninguém ia embora sem almoçar. Hoje não é mais assim", manifesta.

Tanto Roberta quanto Jorge comentam sobre a energia do Pantanal. Para eles, é um local de paz. Para a filha, Anna, que atualmente está com 12 anos, as áreas pantaneiras representam liberdade. "Eu me sinto livre quando vou para lá", afirma.

Anna sente liberdade no Pantanal - (Foto: Luciano Muta)

A empresária conta que se encontrou na mulher pantaneira, e pretende manter a tradição viva até para os serranos, maneira pela qual os pantaneiros se referem aos campo-grandenses. "Eu me encontrei na mulher pantaneira. Forte, determinada, que não tem medo e possui voz entre os homens. O mundo ainda é tão machista, mas ainda vamos transformá-lo no mundo das mulheres. A força da pantaneira é minha força, é o que me preenche", diz.

San Steban - A loja trabalha com entregas e possui espaço físico localizado na Rua Júlio Barone, 731, no Bairro São Francisco. Conheça detalhes pelo Instagram @sanstebancampogrande.

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