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Feminicídio

“Perdi a cabeça”, diz palhaço Sabiá durante julgamento pela morte de merendeira

Jesus Ajala pegou 17 anos de prisão por matar a namorada a facadas na casa dele, em 2019

Com a máscara na testa, Jesus Ajala, conhecido como palhaço Sabiá falou ao júri (Foto:Ana Lívia Tavares)

17 anos de reclusão e 10 dias de multa. Esta foi a sentença para Jesus Ajala da Silva, 48 anos, conhecido como palhaço Sabiá. Ele foi julgado nesta quinta-feira (17) pelo Tribunal do Júri em Campo Grande, pela morte da merendeira Silvana Tertuniana da Silva, 46 anos. Este foi o segundo julgamento após o retorno dos júris que estavam suspensos há seis meses devido à pandemia do novo coronavírus.

Jesus Ajala era acusado de homicídio qualificado por feminicídio e motivo torpe e prestou depoimento, na manhã de hoje, por videoconferência do presídio. Conforme a denúncia do Ministério Público, ele cometeu o crime por não aceitar o fim do relacionamento com Silvana com quem namorava há seis meses.

Aos jurados, Jesus disse discutiu com a namorada porque Silvana foi até a casa dele e falou do ex-marido. “Ela ficou falando que ele era mais homem do que eu. Fiz empréstimo para pagar as dívidas dela, água, luz, IPTU, comprei colchão de casal. Já iria pintar a casa dela, fui honesto. Se ela quisesse voltar com o ex, não aceitava minha ajuda desde o começo”, disse o réu em depoimento.

Silvana foi morta no dia 9 de janeiro de 2019, com quatro facadas, na casa de Jesus Ajala, o palhaço Sabiá. Ele era animador de festas e os dois se conheceram na escola em que a vítima trabalhava. O corpo dela foi encontrado enrolado num lençol ainda com a faca usada no crime, no quintal de uma casa abandonada, próximo da residência do palhaço que esperou passar o período do flagrante para se entregar a polícia, seis dias depois do crime.

Na época, quase 24 depois do desaparecimento da mãe, as filhas de Silvana de 12 e 6 anos que estavam sozinhas, ligaram para pedir ajuda ao irmão mais velho. Antes de deixarem a casa, uma delas escreveu bilhetes, na esperança da mãe retornar, que diziam: "se eu não estiver aqui é porque a senhora sumiu, te amo", "mãe, por favor chega logo, estou na casa do meu irmão".

“Perdi a cabeça. Dei a primeira facada nela, ela resmungou, no começo não era meu plano, vi que acertei a primeira e já entendi que minha vida complicou. O celular dela estava descarregado, não tinha como pedir ajuda. Eu dei as 4 facadas porque fiquei nervoso na hora, perdi a cabeça. A primeira foi no tórax, as outras eu não lembro, na hora eu fiz cego”, detalhou o acusado durante julgamento.

A promotora, Jesus negou que o crime tenha sido premeditado ou cometido por vingança. “Eu estava muito nervoso, não foi vingança, só discussão”.

Retorno – Para o retorno dos julgamentos, após seis meses de suspensão, o Tribunal do Júri passou por readequações. Seguindo as normas rigorosas de biossegurança, o acesso ao plenário está limitado. Até mesmo o sorteio dos jurados nesta quinta-feira (17) foi realizado do lado de fora.

Na entrada foi colocando um totem de álcool em gel para higienização das mãos. A temperatura também é aferida e o uso de máscara é obrigatório. Dentro do plenário, a distribuição dos sete jurados foi modificada para respeitar o distanciamento. O réu e testemunhas prestam depoimento presencial e depois acompanham a sessão por videoconferência. Somente dois familiares do réu e dois da vítima são autorizados a entrar.  

No período de suspensão cerca de 80 júris foram cancelados. Com a retomada, a prioridade estão sendo os casos com réus presos e de feminicídio.

O julgamento de Jesus Ajala é o primeiro de feminicídio neste retorno, mas até o dia 30 de setembro estão marcados outros dois casos de mulheres assassinadas no contexto de violência doméstica.