• Diretor de Redação Ulysses Serra Netto

Geral

Vídeos de cirurgias nas redes sociais ampliam debate sobre ética médica

Com o Brasil na liderança mundial em cirurgias plásticas, especialistas alertam para as informação, publicidade e proteção ao paciente

Quinta-feira, 16 Julho de 2026 - 11:33 | Sandra Salvatierre


Vídeos de cirurgias nas redes sociais ampliam debate sobre ética médica
Brasil realizou mais de 2,3 milhões de cirurgias plásticas estéticas em 2024, ocupando a primeira posição global. Somados os tratamentos estéticos não cirúrgicos, foram mais de 3,1 milhões de intervenções no período. (Foto: Divulgação)

O que antes ficava restrito ao centro cirúrgico agora alcança milhões de visualizações nas redes sociais. Câmeras passaram a registrar desde os preparativos até a recuperação de pacientes, transformando procedimentos cirúrgicos em conteúdo digital. A prática, cada vez mais comum entre profissionais da saúde, reacende o debate sobre os limites éticos da exposição e o equilíbrio entre informação, publicidade e segurança do paciente.

O assunto ganha ainda mais relevância em um país que lidera o ranking mundial de cirurgias plásticas. De acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), o Brasil realizou mais de 2,3 milhões de cirurgias plásticas estéticas em 2024, ocupando a primeira posição global em número de procedimentos. Somados os tratamentos estéticos não cirúrgicos, foram mais de 3,1 milhões de intervenções no período.

Embora a produção de conteúdo por médicos seja permitida, o Conselho Federal de Medicina (CFM) estabelece normas para preservar a ética profissional e proteger os pacientes. Entre as restrições estão a presença de equipes de filmagem em cirurgias com finalidade publicitária e transmissões que possam comprometer a segurança do procedimento ou transformar o ato médico em espetáculo.

A advogada especialista em Direito Médico, Giovanna Trad, explica que a resolução do CFM sobre publicidade médica regulamentou algumas modalidades de divulgação, o que levou parte dos profissionais a interpretar, de forma equivocada, que haveria autorização irrestrita para gravar procedimentos cirúrgicos.

"Na realidade, a norma apenas disciplinou determinadas formas de publicidade, como a divulgação de imagens de antes e depois. Ainda assim, essa divulgação exige autorização expressa do paciente, mediante termo de uso de imagem adequado às exigências da LGPD e às normas do CFM", destaca.

Segundo Giovanna Trad, é fundamental diferenciar a divulgação dos resultados da exposição do procedimento.

"O CFM permite, observados os requisitos éticos, a divulgação de imagens de antes e depois. O que permanece proibido é a exposição do transcurso da cirurgia, seja por fotografias, seja por vídeos, porque esse conteúdo deve permanecer restrito ao ambiente científico e de ensino, como em aulas e congressos médicos, sempre com autorização do paciente e respeito ao sigilo profissional", explica.

Quem já passou diversas vezes pelo centro cirúrgico enxerga a prática com cautela. A empresária Juliana Sampaio, de 48 anos, realizou 23 cirurgias, sendo 13 estéticas, e acredita que as gravações podem contribuir para orientar futuros pacientes, desde que respeitem os princípios éticos.

Vídeos de cirurgias nas redes sociais ampliam debate sobre ética médica
A empresária Juliana Sampaio, de 48 anos, realizou 23 cirurgias,.
(Foto: Divulgação)

"Acredito que a gravação dos procedimentos pode ajudar outras pessoas a entenderem melhor o que vão enfrentar. Em uma cirurgia complexa, autorizei toda a filmagem, desde o procedimento até a recuperação no hospital, porque entendi que aquele material teria valor para acompanhamento e estudo. Nas redes sociais também vejo espaço para esse tipo de conteúdo, desde que seja feito com ética e responsabilidade. É importante mostrar a realidade: nem toda cirurgia é um mar de rosas. O paciente precisa conhecer os riscos, entender como é a recuperação e saber que intercorrências podem acontecer, mas que, quando bem conduzidas, também podem ser resolvidas", afirma.

Sobre as consequências para os profissionais que desrespeitam as normas, Giovanna Trad esclarece que as sanções podem ocorrer nas esferas ética e judicial.

"No âmbito dos Conselhos Regionais de Medicina, o médico pode responder a processo ético-profissional, e as penalidades variam conforme a gravidade da conduta e eventual reincidência. Na esfera judicial, caso não consiga comprovar que havia autorização válida para uso da imagem, poderá ser condenado ao pagamento de indenização por danos morais, além de outras consequências previstas na legislação", conclui.

 

SIGA-NOS NO Google News

Tudo Sobre:

  brasil  saude  medicos  plastica