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UFMS coordena tradução de revista de ficção especulativa norte-americana

Projeto Mão na Massa traz ao país a revista Tractor Beam, referência no gênero solopunk

Sexta-feira, 10 Julho de 2026 - 11:30 | Redação


UFMS coordena tradução de revista de ficção especulativa norte-americana
Equipe do projeto de extensão traduz revista. (Foto: Guilherme Cigerza)

Uma carta enviada de Campo Grande para os Estados Unidos abriu caminho para que uma nova corrente da ficção especulativa chegasse aos leitores de língua portuguesa. Coordenado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o projeto de extensão Mão na Massa foi o responsável pela versão brasileira de “Geração”, a edição inaugural da revista digital americana Tractor Beam. A publicação é uma referência internacional na divulgação do chamado solopunk, gênero literário que imagina futuros construídos a partir da regeneração ambiental, do conhecimento ancestral e da relação sustentável com a terra.

A colaboração internacional surgiu por iniciativa do professor da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação (Faalc) e coordenador do projeto, Elton Furlanetto. Ele explica que, depois de traduzirem os contos africanos da Revista Omenana, buscou novas parcerias com mídias digitais focadas em ficção especulativa, que engloba ficção científica, fantasia e horror. "A proposta da revista era o solopunk. Como eu não conhecia essa terminologia, apesar de conhecer vários gêneros do punk, como o cyberpunk e o solarpunk, quis aproveitar essa inovação conceitual também” relata.

A aproximação ocorreu de forma direta, sem a necessidade de acordos formais rígidos. Furlanetto relata que bastou o envio da correspondência com sua apresentação e uma amostra do projeto anterior para que a equipe da revista aceitasse a proposta. "Nos reunimos via zoom para conversar um pouco e as editoras, Lana Porter e Claire Gustavson, estavam muito empolgadas com a possibilidade de ter os contos publicados em outras línguas. Tanto que a ideia que surgiu dessa nossa conversa foi a de fazer uma chamada global, para tradução em outros idiomas”, descreve o docente.

UFMS coordena tradução de revista de ficção especulativa norte-americana
Projeto é coordenado por docente da Faalc. (Foto: Guilherme Cigerza)

A Tractor Beam é uma publicação independente criada pela Tractor Beverage Company, uma companhia de bebidas orgânicas que utiliza o projeto literário como parte de seu compromisso com a agricultura regenerativa. A edição traduzida reúne nove trabalhos originais que discutem futuros enraizados no solo e nas tradições, englobando contos de autores como Christopher R. Muscato, T.K. Rex, Gunnar de Winter, Suyi Davies Okungbowa, L.R. Lam, Tlotlo Tsamaase, Sarena Ulibarri, Chisom Umeh e o brasileiro Renan Bernardo. Os textos em português já podem ser acessados no perfil da revista na plataforma Substack.

O processo de tradução acabou revelando coincidências significativas, como o retorno da narrativa "Maitake-by-the-Sea", escrita originalmente em inglês por Renan Bernardo, para a sua língua materna. O próprio autor acompanhou a tradução como revisor da iniciativa. Para a editora Lana Porter, esse percurso simboliza um movimento de retorno às origens. Ela afirma que a ironia de a primeira história ter sido escrita em inglês por um brasileiro e depois traduzida de volta para o português é muito marcante.  “Esse gênero não é uma importação, mas uma herança”, afirma.

A editora Claire Gustavson complementa que "Geração" reúne histórias baseadas no solo e no mundo natural vistos como tecnologias capazes de inspirar novas formas de viver. Ela defende que a tradução cumpre a missão de tornar as narrativas acessíveis, questionando como seria possível construir um futuro verdadeiramente coletivo se ele não estivesse disponível para todo mundo. Na Para ela, assim como os rios atravessam fronteiras, as histórias devem circular entre diferentes idiomas e culturas para ampliar as possibilidades de imaginar o futuro.

UFMS coordena tradução de revista de ficção especulativa norte-americana
Gênero reúne futuros desenvolvidos a partir da regeneração ambiental. (Foto: Guilherme Cigerza)

O projeto Mão na Massa, que começou com integrantes da UFMS e da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), expandiu-se e hoje conta com mais de 40 participantes, incluindo estudantes, pesquisadores e tradutores de instituições como USP, UFRGS e UERJ, além de profissionais independentes. Cerca de 20 integrantes atuam de forma recorrente na tradução da Tractor Beam, trabalhando individualmente ou em duplas em um fluxo colaborativo que envolve desde a vertente textual até a revisão por pares.

De acordo com Furlanetto, o principal desafio técnico na tradução de narrativas fantásticas é compreender a lógica de mundos muito inventivos para evitar anacronismos ou deslizes. Além disso, a presença frequente de neologismos exige criatividade redobrada da equipe, enquanto os comentários técnicos de especialistas convidados demandam pesquisa científica aprofundada para fazer a mediação correta com o enredo." [...] os comentários ensinam coisas muito valiosas, fazendo uma mediação entre o conhecimento científico e os elementos da narrativa, então, não dá para ignorá-los”, comenta.

Apesar das complexidades, os tradutores envolvidos destacam os ganhos formativos da experiência. Integrantes como Juliana Schaidhauer, Frank Rudiger Lopes, João Gabriel Arruda, Lucas Durães Fernandes e Diego Silva apontam que a iniciativa tem sido um marco para articular teoria e prática, gerando portfólio, confiança e uma rica troca de experiências entre diferentes regiões do país.

O coordenador avalia que o gênero vive um momento de forte expansão no Brasil, impulsionado pelo reconhecimento acadêmico e por marcos editoriais, como a inclusão da categoria Romance de Entretenimento no Prêmio Jabuti. Furlanetto pondera que, embora o Brasil não tenha um subgênero focado estritamente na temática do solo, a ficção especulativa nacional discute questões ambientais e territoriais há décadas, citando desde o clássico Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão, até obras contemporâneas de Aline Valek, Natalia Borges Polesso e Morgana Kretzmann.

Para o futuro, o grupo Mão na Massa planeja integrar o Laboratório de Literatura Estrangeira e Tradução Literária da Faalc, atualmente em fase de estruturação, visando transformar Mato Grosso do Sul em um polo de tradução literária. Atualmente, a equipe já trabalha na revisão das próximas quatro edições da Tractor Beam e participa do projeto internacional Caixa de Pandora, voltado à publicação bilíngue de ficção científica escrita por mulheres dos séculos 19 e 20. Há também planos de expansão para a língua espanhola, por meio de uma articulação com pesquisadores da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e universidades do México e do Chile.

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