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Tecnologia testada em MS estima maturidade de recém-nascidos
Dispositivo incorporado ao SUS pode ampliar a precisão na identificação da idade gestacional e fortalecer a assistência em regiões com poucos recursos
Quarta-feira, 03 Junho de 2026 - 14:14 | Sandra Salvatierre

Pesquisadores do Instituto Integrado de Saúde (Inisa) e da Faculdade de Medicina (Famed) da UFMS participaram de estudos que validaram uma tecnologia inovadora capaz de estimar com maior precisão a idade gestacional de recém-nascidos. O trabalho integra uma ampla rede colaborativa de pesquisa multicêntrica coordenada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e representa a contribuição da região Centro-Oeste na validação do PreemieTest®, dispositivo que acaba de ser incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS).
A coordenadora da equipe da UFMS, professora Daniele Soares Marangoni, explica que a participação da Universidade ocorreu por convite, em razão de sua experiência em pesquisas clínicas com bebês na região.
“Integrando uma rede colaborativa coordenada pela UFAM, a UFMS participou da quarta fase do estudo, destinada à validação do PreemieTest® em cenários reais de atendimento”, destaca.
Desenvolvido pela médica obstetra e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Zilma Reis, em parceria com o físico Rodney Guimarães, da Birthtech, o dispositivo utiliza tecnologia optoeletrônica para estimar a idade gestacional por meio da análise da maturidade da pele do recém-nascido.
O objetivo do estudo foi avaliar a aplicação clínica da ferramenta em diferentes contextos brasileiros, especialmente para auxiliar na identificação de bebês prematuros e contribuir para decisões mais precisas nos primeiros momentos de vida.
Segundo Daniele, o equipamento apresenta nível de precisão próximo ao da ultrassonografia realizada no início da gestação e superior ao método baseado na data da última menstruação.
“Ele é capaz de identificar um prematuro e estimar a probabilidade de o bebê necessitar de assistência em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, suporte respiratório ou desenvolver a Síndrome do Desconforto Respiratório”, explica.
A pesquisa reuniu instituições de diferentes regiões do Brasil e também de Honduras, incluindo a UFMS, a UFAM, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Hospital Sofia Feldman, em Minas Gerais, e a Universidade Nacional Autônoma de Honduras.
Participação da UFMS
Em Mato Grosso do Sul, os testes foram realizados no Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), na Maternidade Cândido Mariano e na Casa de Parto Florescer. Além da aplicação do dispositivo, a equipe da Universidade foi responsável pelo treinamento de profissionais de saúde, coleta de dados clínicos e acompanhamento dos recém-nascidos após a alta hospitalar.
“Nosso papel foi fundamental na geração de evidências científicas sobre o desempenho e a aplicabilidade da tecnologia no sistema de saúde. Somente em Campo Grande, quase 400 recém-nascidos foram avaliados em poucos meses de estudo”, ressalta a pesquisadora.
Tecnologia pode reduzir riscos neonatais
Os resultados demonstraram que a falta de informações precisas sobre a idade gestacional pode comprometer decisões clínicas importantes e aumentar o risco de subestimação da condição de bebês prematuros.
De acordo com Daniele, o PreemieTest® mostrou-se uma ferramenta objetiva, rápida e não invasiva para auxiliar profissionais de saúde na identificação da maturidade neonatal logo após o nascimento.
“O dispositivo realiza uma leitura indolor da pele do bebê e fornece informações que podem contribuir para decisões críticas de suporte à vida ainda nos primeiros minutos após o parto”, afirma.
A tecnologia funciona por meio da análise da reflectância óptica da pele. Conforme o desenvolvimento fetal avança, as características cutâneas se modificam, alterando a forma como a luz é refletida. Essas informações são interpretadas por um algoritmo capaz de estimar a idade gestacional de forma imediata.
Vantagem em regiões com poucos recursos
Embora a ultrassonografia seja considerada referência para a estimativa da idade gestacional, sua precisão depende da realização precoce do exame. Já métodos clínicos tradicionais, como Capurro e Ballard, podem sofrer influência da experiência do profissional responsável pela avaliação.
Nesse cenário, o PreemieTest® surge como uma alternativa complementar, oferecendo uma medida objetiva e independente de exames anteriores.
Para a pesquisadora, o impacto pode ser ainda mais significativo em localidades com acesso limitado a especialistas.
“Em muitas regiões do Brasil não há pediatras, neonatologistas ou outros profissionais altamente especializados disponíveis na sala de parto. Uma tecnologia de baixo custo, capaz de fornecer informações em segundos, pode contribuir de forma decisiva para reduzir a mortalidade neonatal precoce”, observa.
Além disso, o equipamento possui operação simples, não causa desconforto aos recém-nascidos e pode ser reutilizado após desinfecção adequada.
Estudo envolveu mais de cinco mil bebês
A pesquisa integra a coorte multicêntrica APPLE (Acompanhamento de Bebês pelo PreemieTest®), considerada uma das maiores iniciativas de validação da tecnologia em condições reais de uso.
Ao todo, mais de cinco mil recém-nascidos foram avaliados em quatro estados brasileiros e em Honduras, incluindo comunidades ribeirinhas e regiões de difícil acesso.
Na UFMS, estudantes do curso de Fisioterapia e dos programas de pós-graduação em Ciências do Movimento e em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste também participaram das atividades de treinamento e coleta de dados.
Expectativa com a incorporação ao SUS
Com a incorporação ao SUS, a expectativa é que o dispositivo seja inicialmente disponibilizado nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), ampliando o acesso à tecnologia em áreas mais remotas do país.
Para Daniele, a medida representa um avanço importante para a equidade na assistência neonatal.
“O primeiro minuto de vida é decisivo para o recém-nascido. Ter acesso imediato a informações confiáveis sobre a idade gestacional pode qualificar a tomada de decisões clínicas, reduzir mortes evitáveis e fortalecer as políticas públicas voltadas à saúde neonatal”, conclui.
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