• Diretor de Redação Ulysses Serra Netto

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'Peão eletrônico' é ajuda certeira na lida com a boiada

Segunda-feira, 28 Outubro de 2019 - 13:35 | Redação


Durante o manejo dos bois, a voz que fala no mangueiro é eletrônica e sai do notebook da fazenda.  É ela quem anuncia o aparte e diz se o animal vai para a baia, boiada ou para o refugo, por exemplo, tudo seguindo os comandos pré-definidos no sistema. A tecnologia que rastreia e armazena informações sobre os bovinos foi criada em Mato Grosso do Sul por um médico-veterinário para facilitar o trabalho dos peões e ajudar no bem-estar dos animais.

O sistema é uma espécie de 'peão eletrônico' com muitas habilidades.  Seu nome é Rastrovet, composto por chip, software e aplicativo. Com ele na lida,  o trabalho é feito sem a necessidade de encostar no animal, o que evita riscos para o trabalhador e estresse para o gado. A chegada deste novo 'peão' dispensou o longo e impreciso serviço braçal que era feito para anotação de dados sobre o bovino.  A planilha de papel não é mais necessária.

"A coleta de dados sempre foi o grande gargalo da criação de animais. Após anos de observação no campo,  vi que a tecnologia poderia ser usada para superar o problema e aí passei a elaborar uma solução", explica Marco Antônio Guimarães Marcondes, o médico-veterinário criador do sistema Rastrovet. Agora, basta apontar o bastão eletrônico para o chip colocado no bovino e todos os passos do animal, bem como vacinas, peso e outras informações aparecem na tela.

""Tecnologia composta por chip, software e aplicativo foi criada para a coleta e armazenamento de dados

O boi é cadastrado no sistema assim que recebe o chip. Daí em diante, todo seu histórico, desde a paternidade, estará ali. As antenas colocadas na fazenda captarão toda a movimentação do gado e enviarão ao software. Falando tecnicamente, uma identificação personalizada é feita no animal pelo  Comitê Internacional para Registro Animal (ICAR), sendo rastreado por Identificação por Radiofrequência (RFID).

Com o bovino solto é possível identificá-lo de duas maneiras: entre 25 cm a 80 cm de distância ou de 3 m a 5 m. Todos os dados podem ser acessados independente do aplicativo. O sistema trabalha off-line. Porém, on-line o produtor pode monitorar em tempo real no telefone celular.

Antes do Rastrovet, o trabalho no mangueiro era mais pesado, os peões precisavam se desdobrar para enxergar os números gravados na pele do animal e depois fazer as marcações sobre medicação e peso, por exemplo, nas planilhas de papel, situação que poderia levar a anotações equivocadas sobre o bovino.

""Tecnologia criou facilidades no trato com os animais; basta apontar o bastão e informações aparecem no sistema

"Havia possibilidades de erros.  O trabalhador poderia enxergar o número errado ou fazer marcações equivocadas nas planilhas. O novo sistema tornou tudo mais preciso,  mais rápido e permite acompanhar a evolução dos animais com mais fidelidade. Posso saber, por exemplo, quanto ele ganhou de peso e assim avaliar a eficiência de determinada ração", relata Nelson Canuto, administrador da Fazenda Cedron, no município de Anastácio, que adotou o Rastrovet.

Um dos responsáveis pelo confinamento dos bois na Cedron, o peão Afonso Germano Dieves, endossa a avaliação do administrador sobre o novo sistema. "Antes era mais complicado. A gente tinha que ficar lendo o número e anotando em planilhas. O sistema é mais eficiente em coletar e armazenar dados. A proximidade com o animal era perigosa. Agora, ficou mais confortável para nós e para os bovinos ", analisa o trabalhador.

O médico-veterinário criador do sistema não acredita que a introdução de novas tecnologias como o Rastrovet no campo possa reduzir as vagas de trabalho. "Na minha avaliação, o proprietário rural não vai demitir o peão, ele é necessário. Porém, ele vai ter que se capacitar. As pessoas que trabalharão no campo serão mais qualificadas. Esse é o futuro", afirma Marco Antônio.

Na Cedron, a chegada do Rastrovet não implicou em demissões, mas sim em treinamentos. "Essa tecnologia não veio para tirar a mão de obra, mas para melhorar a informação do campo para o escritório. O que acontece nas fazendas, de modo geral, é que muitas informações se perdem. Com a chegada da tecnologia, a gestão dos dados melhorou. Não demitimos ninguém. Estamos qualificando os nossos trabalhadores. Alguns deles já passaram por cursos de informática, por exemplo", explica o administrador Nelson Canuto.

""Além de armazenar dados, o sistema emite alertas sobre vacinas ou medicamentos aplicados ou a falta deles

Além de armazenar o histórico do animal, o sistema também emite alertas sobre vacinas ou medicamentos já ministrados no bovino ou a falta deles, de forma a melhorar o controle sanitário na propriedade rural.  Até mesmo o peso é registrado de forma eletrônica. O animal pisa na balança e o peso vai direto para o sistema. "A gente nem precisa fazer digitação, o que diminui a chance de erros", observa o administrador.

Na Cedron, a chegada do sistema permitiu um salto na criação dos animais. A fazenda, considerada modelo em uso de tecnologias e adoção de boas práticas agropecuárias, produz gado para atender o mercado da carne gourmet, servida em restaurantes e hotéis de alto padrão. É um público que exige cortes com origem e qualidade.

O bovino criado na propriedade é resultante do cruzamento das raças Nelore e Angus que produz um animal precoce e com carne macia e suculenta, segundo o administrador da Cedron. Entre 12 e 14 meses de vida, os machos alcançam 500kg. Além da aptidão da raça para a precocidade, o bom desempenho é resultado de cuidado na seleção genética, alimentação e sanidade animal.

""Seleção genética cuidadosa, alimentação, sanidade e tecnologia são responsáveis pelo bom desempenho que aparece na balança

O novo sistema aprimorou o trato com os animais e melhorou o ambiente de trabalho para os humanos na fazenda. "O uso de tecnologia agrega valor ao nosso produto, afinal, atendemos um mercado muito exigente. Além disso, essa rastreabilidade minimiza o manejo que ficou mais rápido. Não tem mais gritaria no mangueiro, nem agitação ou estresse. Isso ajuda o animal a ganhar peso mais rápido e produzir carne de melhor qualidade", detalha o administrador.

Satisfeito em constatar que o Rastrovet garantiu bem-estar aos bovinos e aos trabalhadores que lidam com os animais, o criador do sistema já tem novos projetos em mente para ajudar a melhorar a coleta de dados que, como já foi mencionado, segundo ele, é o grande gargalo da pecuária. "Agora, estou debruçado em outro sistema para contagem dos animais no campo. Muito fazendeiro não sabe quantos animais possui. A tecnologia poderá ajudá-lo", planeja Marco Antônio.

Celeiro de tecnologias e ciência - Não é só a cabeça de Marco Antônio que fervilha de ideias para levar tecnologia às propriedades rurais. Dentro das universidades de MS, há trabalhos promissores -- alguns já reconhecidos internacionalmente -- e que também têm um sério gargalo a superar, a falta de recursos para pesquisas.

A reportagem do Diário Digital esteve na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e Universidade Católica Dom Bosco (UCDB)  visitando projetos que podem ajudar o desempenho no campo e assegurar a preservação do meio ambiente, ambas metas essenciais para a humanidade.

""Professor Paulo de Sousa Carvalho, da UFMS, tem pesquisas avançadas com Engenharia de Cristais

Na UFMS, uma pesquisa usando Engenharia de Cristais está na lista dos projetos que visam reduzir impactos ambientais. A ideia é desenvolver ingredientes agroquímicos de herbicidas, por exemplo, de maior solubilidade e estabilidade, com melhor eficiência e menor dosagem na aplicação agrícola.

A pesquisa é de responsabilidade do professor Paulo de Sousa Carvalho Júnior, do Campus de Nova Andradina (CPNA), por meio do Programa de Pós-graduação em Química do Inqui/UFMS. A Engenharia de Cristais converte os ingredientes ao estado sólido para estudar suas propriedades e levá-los a uma aplicação diferente.

Seus recentes testes com os herbicidas Ametrina e Atrazina, muito usados no combate às ervas daninhas, em plantações de cana e milho, apontaram que a Engenharia de Cristais pode reduzir a quantidade do produto aplicado nas plantações e sem deixar resíduos no meio ambiente.

Durante visita ao laboratório de Química, no campus de Campo Grande, ele concedeu vídeo-entrevista ao Diário Digital na qual fala dos aspectos técnicos da Engenharia de Cristais e ainda do seu esforço em fazer avançar um trabalho relevante, com pouca estrutura.

Conforme o professor, o trabalho da Engenharia de Cristais não depende da descoberta de novos agroquímicos. "Não precisa começar do zero. Você pode pegar os que já existem e, através da engenharia, encontrar formas de otimizá-lo. Assim, ele se tornará eficiente com pequenas quantidades e não deixará rastros na natureza para poluir o solo ou as águas", detalha.

No entanto, para facilitar o estudo das propriedades agroquímicas e consequentemente o desenvolvimento da pesquisa é preciso que se tenha laboratório para análise do estado sólido. "Atualmente, só existem quatro laboratórios no País. Então, a gente sempre precisa enviar as amostras para fora de MS ou usar técnicas secundárias para análise, o que torna o trabalho mais longo", explica.

A presença do laboratório permitiria avançar nas pesquisas nas áreas biológicas em MS. "Seria possível analisar qualquer produto com ação biológica. O Cerrado é muito rico em produtos biológicos. Estou certo de que poderíamos fazer grandes descobertas para ajudar a humanidade se tivéssemos esse laboratório à disposição dos pesquisadores", acredita o professor.

Visão computacional - Dentro da UCDB nasceu um projeto pioneiro em aplicar a visão computacional na agricultura, o Inovisão. Professores e acadêmicos trabalham em pesquisas voltadas para vocação rural do Estado. É como se fosse um casamento entre o que os pesquisadores sabem fazer usando a visão computacional e o que o  produtor rural precisa para melhorar o desempenho no campo.

""Laboratório do Projeto Inovisão, da UCDB, pioneiro em aplicar visão computacional na agricultura

A mais recente criação do grupo é o projeto Vantagro-MS, um dos cinco premiados no mundo com aporte internacional de US$ 6 mil para implementar tecnologia de combate às pragas e doenças na agricultura, além de identificar espécies arbóreas do Cerrado.

O Vantagro consiste de um drone com uma haste que leva a câmera na ponta, de modo a conseguir captar imagens das partes baixas da planta perto o suficiente para ver se as folhas estão saudáveis ou doentes e quais pragas estão presentes. O software para ler as imagens do drone está em fase de desenvolvimento. O trabalho que antecede o uso da tecnologia exige muita pesquisa e longas horas de serviço.

"É preciso montar um banco com imagens de folhas e ir testando para ver se o sistema consegue acertar realmente", comenta o criador e coordenador do grupo Inovisão, o professor Hemerson Pistori.  O Vantagro foi feito em parceria com o acadêmico de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), David Di Martini, foi ele quem desenvolveu o drone, enquanto o pessoal do Inovisão criou o software.  

""Drone tem haste que leva câmera na ponta para captar imagens das partes baixas das plantas e assim identificar possíveis doenças

O acadêmico defendeu a tecnologia em feira realizada em Yokohama (Japão) após ser selecionado para receber o financiamento internacional. "Comecei a desenvolver o drone quando ainda estava no ensino médio técnico no Instituto Federal, onde me formei em Eletrotécnica. É uma tecnologia importante que permitirá avaliar o nível de infestação na lavoura e conseguir medidas mais precisas para o controle fitossanitário ou agroecológico e ainda diminuir o impacto ambiental”, avalia.

Tanto o drone quanto o software estão passando por aperfeiçoamento dentro das universidades, ainda sem previsão para chegarem ao campo. A ideia é que os resultados possam ser consultados em telefones celulares.  

Contador de alevinos - O Inovisão é berço também do inédito contador de alevinos, uma máquina equipada com câmeras e software que identifica e conta os peixes, tudo baseado na visão computacional. A tecnologia já é usada pelo Projeto Pacu, em fazenda no município de Terenos. Agora, o software está sendo aperfeiçoado para que, além de contar, o sistema também pese os peixes e aponte uma média de crescimento.

O vídeo abaixo postado pelo professor Hemerson Pistori permite entender melhor o funcionamento da tecnologia que, na avaliação dos pesquisadores, poderá ajudar no desenvolvimento da piscicultura local e nacional.

Outro projeto que surgiu dentro da UCDB foi um dispositivo que monitora a mastigação do bovino. O Rumicam é uma espécie de canga pantaneira com duas câmeras acopladas, uma que permite registrar imagens da lateral da mandíbula do bovino e a outra que grava a parte frontal. Com essa tecnologia, será possível  saber mais sobre o comportamento e a saúde do rebanho.

O produtor rural poderá saber como cada bovino seleciona a pastagem, a quantidade de fibra que ele ingere, se mastiga normalmente, se tem ciclo de rumem dentro do padrão e outras informações, de modo a facilitar o manejo, identificar se o animal está doente e o nível de aproveitamento alimentar.

""Tecnologia desenvolvida na universidade monitora mastigação dos bovinos

Bem-estar animal - Também pensando no bem-estar animal, pesquisadores da UFMS e Embrapa Gado de Corte criaram a Bovine Electronic Plataform (BEP).  O equipamento é colocado na cabeça do bovino, como um cabresto, de forma não invasiva. Os sensores que ficam em contato com a pele do animal captam as informações fisiológicas e as enviam para a plataforma eletrônica.

Assim, é possível monitorar as condições do bovino sem a necessidade de manejo ou presença humana perto dele. As informações como temperatura, frequência respiratória, batimentos cardiácos e outros dados do animal podem ser consultados através do telefone celular. O monitoramento poderá apontar previamente situações de desconforto que causem perda de peso e queda da qualidade da carne e leite.

 A tecnologia foi reportada em matéria do Diário Digital quando estava em desenvolvimento dentro da Universidade Federal, em 2017.  Agora, o aprimoramento está a cargo da startup Indext, formada por ex-alunos da UFMS. Em video-entrevista, o diretor da Indext, Ricardo Aguiar, detalha o funcionamento da BEP e fala sobre a busca por investidores para o projeto; confira. 

Grandes ideias, poucos recursos- Como se viu nesta reportagem, são muitas e boas as ideias que nascem em MS. Ao participar da feira no Japão, o acadêmico David Di Martini (criador do Vantagro-MS) disse ter ficado orgulhoso com os projetos locais apresentados no evento. "A melhor parte foi ver que as nossas pesquisas não estão atrás do que o resto do mundo vem desenvolvendo em tecnologia. Temos trabalhos com bastante complexidade que obtêm bons resultados", enaltece.

Contudo, conseguir dinheiro para as pesquisas é um desafio. "Na primeira construção do drone, há dois anos, não consegui apoio nenhum.  Meus pais me ajudaram e usei um dinheiro que eu estava guardando para tirar a carteira de motorista", relembra. "Além disso, alguns editais que o governo federal abre não oferecem recursos altos e você tem que enfrentar a concorrência que é grande para a oferta de dinheiro", acrescenta.

""Experiências com drones são feitas nas universidades na tentativa de melhorar o desempenho no campo

O mesmo lamento faz o professor Hemerson Pistori, coordenador do Inovisão. "Hoje, as pesquisas têm um limite econômico e isso compromete a ciência e a tecnologia. No caso específico do nosso trabalho, estaríamos em estágio mais avançado se tivéssemos, por exemplo, drones com mais autonomia e câmeras com maior precisão. Porém, no Brasil o investimento é pequeno", diz o professor.

Neste ano, o governo federal realizou contingenciamento de recursos que atingiu várias áreas, inclusive, ciência e tecnologia. O motivo alegado foi a arrecadação que ficou abaixo do esperado. Entidades da comunidade científica estão na batalha para tentar recompor o orçamento para o ano que vem.

""Tecnologia facilita o trato com os animais e melhora o ambiente de trabalho para os humanos

 

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