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MPF cobra mais transparência sobre agrotóxicos na água de Dourados

Recomendação exige que Sanesul informe riscos de contaminação e detalhe resultados das análises da água distribuída à população

Quinta-feira, 16 Julho de 2026 - 11:50 | Sandra Salvatierre


MPF cobra mais transparência sobre agrotóxicos na água de Dourados
A preocupação é reforçada pela evolução do cenário ambiental e pelos riscos à saúde. Em novembro de 2025, a atrazina e o alaclor foram reclassificados pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc) para o Grupo 2A. (Foto: Luiz Alberto)

O Ministério Público Federal (MPF) recomendou que a Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul (Sanesul) amplie e regularize as informações fornecidas aos consumidores sobre a qualidade da água distribuída em Dourados. A medida busca assegurar o direito à informação clara e adequada após a identificação de inconsistências nas faturas mensais sobre os riscos de contaminação do manancial por agrotóxicos.

O procedimento foi instaurado após a constatação de uma contradição nas contas de água emitidas em março e abril de 2026. Embora a Sanesul informasse, no campo "Descrição do Manancial", que a bacia do Rio Dourados está inserida em uma região com intensa atividade agrícola e pecuária, reconhecendo o potencial de contaminação, o mesmo documento afirmava que não havia "riscos evidentes de sofrer contaminações". Para o MPF, a informação omite a presença recorrente de agrotóxicos e contraria a legislação que garante transparência aos consumidores e usuários dos serviços de saneamento.

A recomendação estabelece prazo de 30 dias para que a concessionária promova adequações nos canais de comunicação com a população. Nas faturas mensais, a empresa deverá apresentar um resumo dos resultados das análises da água, informar de forma clara os riscos relacionados às características do manancial e orientar os consumidores sobre eventuais medidas preventivas. O órgão também determinou a imediata correção da informação que nega a existência de riscos de contaminação.

As exigências também alcançam o relatório anual da distribuidora. O documento deverá trazer uma descrição detalhada das condições da bacia hidrográfica, das possíveis fontes de contaminação e dos resultados mensais das análises da água distribuída. A Sanesul ainda deverá informar o Valor Máximo Permitido (VMP) para cada substância, conforme estabelece o Ministério da Saúde, além do número de amostras coletadas, das irregularidades identificadas em relação aos agrotóxicos previstos na Portaria GM/MS nº 888/2021 e das medidas preventivas ou corretivas adotadas. Sempre que algum parâmetro estiver acima do permitido, a informação deverá ser destacada com o aviso "Fora dos padrões de potabilidade".

MPF cobra mais transparência sobre agrotóxicos na água de Dourados
A preocupação é reforçada pela evolução do cenário ambiental e pelos riscos à saúde. 
(Foto: Divulgação)

Os riscos apontados pelo MPF são respaldados por dados do Painel de Monitoramento de Resíduos de Agrotóxicos em Águas Superficiais de Mato Grosso do Sul, desenvolvido pela Embrapa Agropecuária Oeste. O levantamento mostra que o herbicida atrazina foi detectado em 84,44% das amostras coletadas no Rio Dourados. Das 630 análises realizadas até 24 de abril de 2026, 532 apresentaram resultado positivo para a substância.

A preocupação é reforçada pela evolução do cenário ambiental e pelos riscos à saúde. Em novembro de 2025, a atrazina e o alaclor foram reclassificados pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc) para o Grupo 2A, categoria destinada a substâncias consideradas provavelmente carcinogênicas para humanos. Paralelamente, o número de pesticidas diferentes identificados no Rio Dourados aumentou de 20, em 2019, para 43 em 2025. Apenas nos quatro primeiros meses de 2026, o monitoramento já registrou a presença de 38 tipos distintos de agrotóxicos.

O painel da Embrapa também revela a evolução das concentrações de atrazina ao longo dos últimos anos. O maior índice foi registrado em 28 de março de 2024, quando a concentração atingiu 0,933 μg/L. Os maiores valores anuais foram de 0,130 μg/L em 2020, 0,188 μg/L em 2021, 0,254 μg/L em 2022, 0,666 μg/L em 2023, 0,207 μg/L em 2025 e 0,456 μg/L no período monitorado em 2026.

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