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Mato Grosso do Sul abriga mais de 150 mil hectares em reservas privadas
Estado soma 63 RPPNs em 27 municípios, consolidando áreas estratégicas para preservação, pesquisa e ecoturismo
Terça-feira, 03 Fevereiro de 2026 - 13:50 | Sandra Salvatierre

Mato Grosso do Sul reúne 153.577,9891 hectares oficialmente registrados como Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), distribuídos em 63 unidades localizadas em 27 municípios. Criadas por iniciativa voluntária de proprietários rurais, sem desapropriação e com caráter perpétuo, essas áreas se consolidam como verdadeiros ativos ambientais voltados à proteção da natureza.
Ao efetivar o registro, o instituidor assume compromisso permanente com a conservação, transformando parte de sua propriedade em espaço dedicado à manutenção da biodiversidade. Pela relevância desse modelo, o Dia Nacional das RPPNs, celebrado em 31 de janeiro, destaca a contribuição dessas áreas para a agenda ambiental brasileira.
Mesmo mantendo a titularidade privada, as reservas têm como finalidade preservar ecossistemas, estimular pesquisas científicas, fomentar o ecoturismo, apoiar ações de educação ambiental e abrir caminhos para instrumentos inovadores, como os Pagamentos por Serviços Ambientais (PSAs).
Corumbá lidera ranking estadual
O município de Corumbá, conhecido como Capital do Pantanal, ocupa a liderança estadual na proteção por meio de RPPNs. Conforme dados do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), são 14 reservas, que somam 28.442,9403 hectares.
Na sequência aparecem Aquidauana, com 14.387 hectares, e Eldorado, que contabiliza 7.580,3498 hectares destinados à conservação privada.
Atuação estratégica do Instituto Homem Pantaneiro
Em Corumbá, o Instituto Homem Pantaneiro (IHP) é responsável pela gestão de quatro RPPNs: Acurizal/Penha, Rumo ao Oeste, Engenheiro Eliezer Batista e Dorochê (localizada em Mato Grosso).
“Somos movidos pela paixão pela conservação e temos como missão sermos produtores de natureza, conceito desenvolvido pelo espanhol Ignácio Jimenez. Atuamos em um território com mais de 80% de áreas preservadas, mas também com grandes desafios, como logística complexa e altos custos operacionais”, afirma o presidente do IHP, Angelo Rabelo.
Essas áreas também cumprem papel estratégico na formação de corredores ecológicos, ao se conectarem com o Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense, em Poconé (MT), e com a região da Serra do Amolar. O trabalho integra a Rede de Proteção e Conservação da Serra do Amolar (Rede Amolar).
“Manter uma RPPN exige investimentos contínuos e monitoramento ambiental permanente. Equilibrar esses custos com as receitas disponíveis é um dos principais desafios”, explica Rabelo.

(Foto: Divulgação)
Reconhecimento do ICMBio
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) ressalta o papel estratégico dessas áreas para a manutenção da fauna e da flora no país.
“As RPPNs nascem de um gesto voluntário e de grande responsabilidade: proteger, em caráter permanente, um patrimônio natural de interesse público. Elas fortalecem a conectividade ecológica e garantem serviços ecossistêmicos essenciais à vida”, destaca o presidente do ICMBio, Mauro Pires.
Segundo ele, os benefícios vão além da proteção ambiental. “Essas áreas impulsionam a pesquisa científica, a educação ambiental e o turismo sustentável, gerando oportunidades locais e valorizando os territórios onde estão inseridas. O Brasil já conta com mais de 811 RPPNs, expressão madura da aliança entre iniciativa privada e compromisso coletivo com o futuro”, completa.

(Foto: Divulgação)
Pesquisa científica e proteção da fauna
Ao longo da última década, o IHP desenvolveu estudos em parceria com pesquisadores nacionais e internacionais para compreender os impactos dos incêndios florestais sobre a fauna. Outras frentes investigam o comportamento das onças-pintadas, maior felino das Américas. O monitoramento mensal gera milhares de registros fotográficos da vida silvestre.
As áreas sob gestão do instituto funcionam como refúgio para nove espécies classificadas como vulneráveis ou ameaçadas na Lista Vermelha da IUCN, entre elas:
- Queixada (Tayassu pecari) – VU,
- Macaco-prego-do-papo-amarelo (Sapajus cay) – VU;
- Mutum-de-penacho (Crax fasciolata) – VU;
- Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) – VU;
- Ariranha (Pteronura brasiliensis) – EN;
- Anta (Tapirus terrestris) – VU;
- Cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) – VU;
- Tapiti (Sylvilagus brasiliensis) – EN;
- Tatu-canastra (Priodontes maximus).
Mais de 200 espécies de fauna já foram identificadas nessas áreas.
Além disso, está em operação uma brigada ambiental permanente para prevenção de incêndios, aliada ao uso de inteligência artificial por meio do Sistema Pantera, voltado ao monitoramento e à redução do risco de fogo.
Para 2026, está previsto o início de um estudo inédito para estimar a população de onças-pintadas na região, com potencial para subsidiar estratégias de mitigação de conflitos entre seres humanos e grandes felinos.
Debates nacionais e estaduais sobre RPPNs
No dia 30 de janeiro de 2026, equipes do IHP participaram de discussões nacionais sobre manutenção e uso dessas áreas privadas. O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) promoveu, em Brasília (DF), o evento Biodiversidade, Clima e Geração de Renda no Contexto das RPPNs, com participação de Angelo Rabelo em um dos painéis.
Em âmbito estadual, a Semadesc, em parceria com o Imasul e a UEMS, também realizou debates sobre os desafios e a sustentabilidade dessas áreas, com participação do coordenador técnico do núcleo de Biodiversidade e Mudanças Climáticas do IHP, Wener Hugo Moreno.
Sobre o Instituto Homem Pantaneiro
Fundado em 2002, em Corumbá (MS), o Instituto Homem Pantaneiro (IHP) é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos dedicada à conservação e restauração do Pantanal, além da valorização da cultura pantaneira.
A instituição atua na gestão de áreas protegidas, no apoio a pesquisas científicas e na promoção do diálogo entre diferentes atores do território. Suas ações se concentram na proteção da biodiversidade, mitigação das mudanças climáticas e no trabalho conjunto com comunidades tradicionais e povos originários, em prol do desenvolvimento sustentável.

(Foto: Divulgação)
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