Geral
Há 25 anos, um campo-grandense troca o amarelo pelo azul do Japão
Enquanto a maioria dos brasileiros torce pela Seleção Brasileira em tempos de Copa do Mundo, Rafael encontrou uma nova paixão
Segunda-feira, 15 Junho de 2026 - 12:30 | Sandra Salvatierre

Em tempos de Copa do Mundo, histórias de paixão pelo futebol costumam atravessar fronteiras. Enquanto milhões de brasileiros depositam suas esperanças na Seleção Brasileira, o campo-grandense Rafael “GAIJIM”, de 43 anos, encontrou há mais de duas décadas uma segunda paixão esportiva: a Seleção do Japão.
Gestor de marketing e natural de Campo Grande, Gaijim desenvolveu uma forte ligação com a cultura japonesa ainda na infância. Cercado por famílias descendentes de japoneses, construiu amizades que ajudaram a moldar sua admiração pelo país asiático muito antes de se tornar torcedor dos chamados Samurais Azuis.

(Foto: Arquivo pessoal)
A relação começou nos primeiros anos de vida. Sua mãe era dona de uma lanchonete e cozinheira profissional na Avenida Mato Grosso. Durante parte do dia, ele ficava aos cuidados de uma cabeleireira descendente de japoneses que morava na região. À noite, era comum frequentar barracas de sobá na antiga Feirona de Campo Grande, além de conviver com comerciantes e famílias de origem japonesa.
“Eu sempre brincava com os filhos do senhor Shimada, que tinha uma mercearia ao lado da lanchonete da minha mãe. Essa convivência despertou uma admiração natural pela cultura japonesa”, relembra.
Mas foi durante a Copa do Mundo de 1998, na França, que a paixão pelo futebol japonês nasceu definitivamente.
“A admiração começou quando o Japão participou pela primeira vez de uma Copa do Mundo. Tinha o Nakata no meio de campo e o Kawaguchi no gol. Eram pequenos, rápidos e ainda muito gratos ao Zico por ter levado a alegria do futebol brasileiro para lá. Gostei demais do que vi”, conta.
Naquele mesmo Mundial, Gaijim acompanhou com tristeza a derrota do Brasil para a França na decisão.
“Assim como o mundo todo, eu torcia pelo Ronaldo Fenômeno. O Brasil perdeu por 3 a 0 e aquela final foi dolorida. Ali percebi que a nossa amarelinha tinha perdido parte da sua magnitude”, afirma.
Disciplina como marca registrada
Ao longo dos anos, Rafael passou a admirar não apenas o futebol japonês, mas também os valores que considera fundamentais na cultura do país.
“Indiscutivelmente, a disciplina é o principal diferencial. É um dos pilares da cultura japonesa e algo que nós acabamos perdendo ao longo dos anos, tanto na seleção quanto no nosso país. O amor à pátria, o orgulho de vestir a camisa e representar a nação eram características muito fortes da Seleção Brasileira até a Copa de 2006”, avalia.
Segundo ele, o respeito à coletividade e o comprometimento dos atletas japoneses fazem a diferença dentro e fora de campo.
Coleção e influência de amigos
A paixão pelo Gaijim também ganhou espaço na coleção pessoal desde de 2026. Rafael acumula camisas da seleção japonesa e acompanha de perto o futebol do país.
Outro fator que fortaleceu essa ligação foi a presença de amigos e conhecidos que construíram carreira no futebol japonês.

(Foto: Arquivo pessoal)
Entre eles está William Xavier, ex-jogador do Vasco da Gama, que atuou pelo Vegalta Sendai. Outro nome lembrado por Rafael é Marcos Araújo, o Marquinhos Cambalhota, ídolo no Japão e destaque do Kashima Antlers.
“Ele foi artilheiro, melhor jogador da J-League em 2008 e conquistou títulos importantes. Hoje mora em Bataguassu. São histórias que aproximam ainda mais a gente do futebol japonês”, destaca.
Expectativas para a Copa do Mundo 2026
Com a Copa do Mundo de 2026 em andamento, Gaijim acredita que o Japão chega forte para surpreender.
“A seleção japonesa tem acumulado resultados importantes e mostrado evolução constante. Mesmo com alguns desfalques por lesão, acredito que os Samurais Azuis vão surpreender muita gente.”
Apesar da preferência pelo Japão, o torcedor garante que não abandonou totalmente suas raízes brasileiras.
“O Brasil não chega como favorito, infelizmente. Mas também não podemos descartar uma surpresa. Aqui em Campo Grande muitos dizem que temos grandes jogadores atuando na Europa, mas se nome ganhasse Copa do Mundo, Messi ou Cristiano Ronaldo já teriam pelo menos três títulos cada um. Se o Brasil chegar à final, vou torcer como torci em 2002”, afirma.
Tradição passada para a filha
A relação com a cultura japonesa também faz parte da vida familiar de Gaijim. Casado no passado com uma descendente japonesa, ele é pai de uma menina “Ellen Mie” que herdou parte dessa tradição.

(Foto: Arquivo pessoal)
“Temos uma filha descendente que é o meu maior amor “Mie”. Tento passar para ela essa paixão pelo futebol. Ela ainda não entende muito bem, mas já faz questão de vestir a camisa do Japão para ficar igual ao papai”, conta, entre risos.
Mais do que futebol
Para Gaijim, torcer pelo Japão vai muito além dos resultados dentro das quatro linhas.
“A Seleção do Japão é uma das poucas que mantém extrema disciplina tática. Mesmo quando está perdendo, conserva a calma e a paciência para buscar o resultado. Eles sabem exatamente quando contra-atacar com velocidade e precisão.”
Na visão do campo-grandense, cada participação japonesa em uma Copa do Mundo representa uma oportunidade de mostrar ao planeta muito mais do que futebol.
“Para os Samurais Azuis, disputar uma Copa vai muito além de um jogo. É uma oportunidade de apresentar seus princípios, sua cultura e a representatividade do seu povo. Algo que, infelizmente, acredito que o Brasil perdeu ao longo dos anos”, finaliza.
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