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Feiras livres preservam tradições, geram renda em bairros de Campo Grande
Com 1.004 trabalhadores cadastrados, atividade sustenta famílias e fortalece produção regional
Domingo, 09 Agosto de 2026 - 16:50 | Sandra Salvatierre

Quem percorre uma feira livre de Campo Grande encontra muito mais do que frutas, verduras e alimentos frescos. Entre o movimento dos consumidores, o aroma do pastel, as conversas entre feirantes e clientes e os produtos cultivados por agricultores da região, esses espaços preservam uma tradição que atravessa gerações, aproximam produtores e consumidores e ajudam a movimentar a economia da Capital.
Além de garantir o abastecimento dos bairros com alimentos frescos e produtos regionais, as feiras livres representam uma importante fonte de renda para milhares de famílias. A atividade também funciona como porta de entrada para pequenos empreendedores e produtores da agricultura familiar.
Atualmente, Campo Grande conta com 1.004 feirantes cadastrados. Segundo estimativa da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável (Semades), cerca de 2.500 pessoas trabalham direta ou indiretamente no segmento, entre produtores rurais, familiares, auxiliares, transportadores e fornecedores.
“A feira é um lugar onde a economia acontece de forma muito próxima das pessoas. Quem compra conhece quem produz, fortalece o comércio local e ajuda a manter centenas de pequenos negócios funcionando”, explica o secretário da Semades, Ademar Silva Junior.
Muito além da compra
Para muitos consumidores, a feira faz parte da rotina semanal. É o espaço para escolher frutas e verduras frescas, encontrar produtos artesanais e manter a convivência com vizinhos. Para quem está atrás das bancas, porém, cada ponto de venda representa o sustento da família e, em muitos casos, a continuidade de um ofício transmitido entre gerações.
É o caso de Wilson Gonçalves, que há mais de 40 anos trabalha como feirante. Morador da zona rural de Campo Grande, ele produz as pokan que comercializa nas feiras da Capital. Ao longo de quatro décadas, construiu sua trajetória tendo a atividade como principal fonte de trabalho e renda.
Para Wilson, as feiras continuam prestando um serviço essencial à população, embora os hábitos de consumo tenham mudado.
“Eu sou muito grato à feira por tudo o que conquistei na minha vida. Foram mais de 40 anos trabalhando aqui e tirando o sustento da minha família. A feira é um serviço essencial, porque leva alimento fresco para as pessoas, mas hoje a gente sente que muitos estão deixando a feira de lado para comprar no mercado. É importante valorizar esse espaço, porque por trás de cada banca existe uma família”, afirma.
A proximidade entre quem comercializa e quem compra também está entre os diferenciais destacados pelos trabalhadores do setor.
Aparecido Moraes, de 65 anos, atua como feirante há mais de 30 anos e comercializa temperos e ervas medicinais, muitos produzidos por ele próprio. Entre os produtos está o colorau, preparado artesanalmente após horas de trabalho e socado no pilão.
Com o passar dos anos, Aparecido também conquistou clientes que passaram a frequentar sua banca regularmente e estabeleceram uma relação de confiança com o feirante.
“Tem cliente que vem uma vez, gosta e depois não deixa mais de comprar. Muitos até tentam comprar no mercado, mas depois percebem a diferença, principalmente porque procuram um produto mais natural. A feira tem essa coisa boa de aproximar as pessoas. A gente conhece o cliente, conversa, sabe o que ele procura e acaba criando uma amizade. Isso é algo que o mercado não oferece da mesma forma”, conta.
Além do impacto econômico, as feiras contribuem para fortalecer a agricultura familiar ao aproximar produtores e consumidores, reduzir a intermediação na comercialização dos alimentos e estimular a produção regional.
Renda que atravessa gerações
Para quem cresceu em meio às bancas e corredores das feiras, a atividade também representa continuidade e tradição familiar. Yutaca Kudo, de 56 anos, é feirante desde pequeno e acompanhou de perto as transformações desse tipo de comércio ao longo das décadas.
Atualmente, a feira é sua principal fonte de renda. Segundo ele, entretanto, trabalhar no segmento exige adaptação e disposição para enfrentar dias de maior e menor movimento.
“A feira é uma surpresa. Tem dia que a gente vende muito bem, sai daqui satisfeito, mas também tem dia que o movimento é mais fraco e quase não vende. Mesmo assim, é daqui que vem a minha principal renda. A gente aprende a lidar com cada dia e continua trabalhando, porque a feira faz parte da nossa vida”, relata.
Do outro lado das bancas, consumidores também mantêm hábitos construídos ao longo dos anos. A procura por produtos frescos está entre os principais motivos que levam moradores a percorrer distâncias para fazer as compras.
Aos 84 anos, o aposentado André da Silva pedala cerca de 30 minutos todas as quintas-feiras até a Feira do Coophavilla. O percurso faz parte da rotina para garantir frutas, verduras e outros produtos que considera mais frescos.
“Às vezes eu até penso em comprar no mercado, porque é mais perto, mas quando chego na feira vejo que as coisas são mais frescas e têm mais gosto. Eu vejo os feirantes descascando o milho na hora. No mercado, muitas vezes o produto fica ali por semanas. Então prefiro pedalar um pouco mais e comprar na feira”, conta.
Economia que movimenta os bairros
Mais do que pontos de comercialização, as feiras livres movimentam uma ampla cadeia produtiva. A atividade envolve produtores rurais, transportadores, fornecedores de insumos, fabricantes de equipamentos, comerciantes e prestadores de serviços, gerando trabalho e circulação de renda em diferentes regiões da cidade.
A maior delas é a Feira das Moreninhas, que reúne aproximadamente 460 feirantes e se consolidou como uma das principais referências do comércio popular e do abastecimento alimentar de Campo Grande.
De acordo com a Semades, fortalecer as feiras livres também significa incentivar o empreendedorismo, valorizar a produção regional e contribuir para o desenvolvimento econômico sustentável da Capital.
Onde encontrar as feiras
A relação completa das feiras livres de Campo Grande, com endereços, dias e horários de funcionamento, está disponível no Perfil Socioeconômico de Campo Grande – Edição 2025.
Organização e funcionamento
As feiras livres são regulamentadas pela Lei Complementar nº 223, de 8 de janeiro de 2014, que estabelece regras para a organização, o funcionamento, o licenciamento e a fiscalização da atividade.
A Semades também realiza um processo contínuo de recadastramento dos feirantes e de remarcação dos espaços. A medida busca atualizar os cadastros, reorganizar a ocupação das áreas públicas e proporcionar melhores condições de trabalho aos permissionários e de atendimento à população.
Quem deseja atuar como feirante deve protocolar presencialmente o pedido de vaga na Central de Atendimento ao Cidadão (CAC). A solicitação é analisada pela Semades, conforme a disponibilidade de espaços e os critérios estabelecidos pela legislação municipal.
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