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Defesa de delegado preso na Omertà entra com pedido de liberdade na justiça

Segunda-feira, 22 Junho de 2020 - 16:51 | Redação


Quatro dias após o cumprimento de mandados de prisão durante a terceira fase da Operação Omertà, deflagrada na última quinta-feira (18), o advogado de defesa do delegado Márcio Shiro Obara, acusado de receber propina para ocultar provas em investigação de homicídio supostamente cometido por milícia, entrou com um pedido de habeas corpus, na tarde desta segunda-feira (22), ao TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul).

Obara foi preso preventivamente junto com outras pessoas acusadas de envolvimento com as organizações criminosas lideradas por Fahd e Jamil Name. Segundo as investigações da força-tarefa da Omertà, as organizações são cúmplices em vários crimes tais como tráfico de armas, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e homicídios.

Quando atuava na Delegacia de Homicídios (DEH), Obara era o responsável por investigar o  assassinato de Ilson Martins, executado a tiros de grosso calibre em  11 de Junho de 2018, na Avenida Guaicurus, em Campo Grande, em plena luz do dia.  O crime teria resultado de uma comunhão de esforços entre as organizações de Fahd e Jamil Name. Após a execução, as organizações passaram a tentar impedir a investigação do crime e corromperam o delegado Márcio Shiro Obara, segundo os autos do processo. Ele teria recebido 100 mil reais entregues pelo ex-guarda municipal Marcelo Rios, ligado a organização de Name, que está preso.

Conforme denúncia do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado), para ocultar o dinheiro recebido indevidamente a título de propina, Obara foi auxiliado pelo investigador Célio Rodrigues Monteiro, lotado na mesma delegacia, fazendo uma transferência bancária, em setembro de 2019, no valor de R$ 50 mil ao policial que comprou um imóvel vizinho à sua residência. Dois meses depois, recebeu ainda outra transferência de R$10 mil, caracterizando como crime de lavagem de dinheiro.

Ao Diário Digital, o advogado Ronaldo Franco que faz a defesa de Márcio Obara alegou que o valor repassado ao investigador se trata de um empréstimo e que o dinheiro é oriundo de uma herança recebida pelo delegado após a morte de sua mãe.

“Quero demonstrar a Justiça que essa negociação é dinheiro da primeira parcela que Obara recebeu da herança da mãe dele, em dezembro 2018, no valor de R$52 mil e que ele estava parado na poupança. Por isso, ele fez o empréstimo ao Célio de 50 mil”, explicou o advogado.

Segundo Ronaldo, o investigador teria devolvido R$51 mil a Obara, com os juros.  Sobre a transferência de R$10 mil, o advogado afirmou que se trata da compra de uma Pistola Glock. “Célio vendeu a pistola para Obara no dia 4 de novembro de 2019 e, no dia seguinte, ele fez um requerimento Sinarm (Sistema Nacional de Armas) para transferência da documentação e o pagamento, uma transação legal e documentada”.

Ainda segundo o Gaeco para dificultar as investigações da morte de Ilson, o delegado teria ocultado um dossiê encontrado no carro da vítima no dia do crime. Os papéis continham 'prits' de conversa de WhatsApp na qual a vítima era avisada que sua morte havia sido autorizada em reunião na cidade de Ponta Porã. Os documentos ou pelo menos parte deles teriam sido destruídos.

 O delegado teria restituído a um familiar de Ilson objetos encontrados com a vítima e que poderiam ajudar nas investigações, tais como uma 'caneta-espiã' e  cartões de memória sem que eles tivessem sido examinados ou periciados. As investigações apontam ainda para a devolução de papéis que não tinham cópias no inquérito policial, medidas tomadas para blindar os mandantes do crime. Obara teria ainda agido para obstruir as investigações de um duplo assassinato, de Alberto Aparecido Roberto Nogueira e Anderson Celin Gonçalves da Silva, crimes que estariam ligados ao desaparecimento de Daniel Alvarez Georges, filho de Fahd Jamil.

Ele não formalizou diligências para apurar a identidade dos mandantes do crime. Além disso, o processo cita que Obara teria assediado delegados do Garras questionando onde eles 'queriam chegar' ao investigar os crimes atribuídos às organizações de Fahd e Name.

“Vamos demonstrar ao máximo que as provas não se sustentam e que Obara jamais foi negligente ou omisso em qualquer investigação”, finalizou o advogado.

O advogado do investigador Célio que segue preso na Derf (Delegacia Especializada de Roubos e Furtos), classificou a prisão preventiva dele como exagerada e desnecessária. Ao Diário Digital, Rui Gibim Lacerda, confirmou que o cliente havia feito apenas um “empréstimo com o delegado e houve a devolução dos R$50 mil”. Sobre a outra transferência, o advogado alegou se tratar de negócios. “Ele fez uma venda de um objeto ao delegado Obara que pagou o valor. Temos as notas fiscais e tudo foi feito de maneira lícita”.

A defesa de Célio deve entrar com pedido de revogação da prisão ou habeas corpus nos próximos dias.

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