Menu
19 de novembro de 2019 • Ano 8
Diretor de RedaçãoUlysses Serra Netto
Nacional

Texto que aponta esquerdismo no jornalismo causa polêmica no CCS

Abordagem de senador foi contestada pela presidente da Federação Nacional dos Jornalistas

6 Nov2019Agência Senado20h12

O Conselho de Comunicação Social (CCS) está finalizando, e deve entregar nos próximos dias, um estudo sobre a liberdade de imprensa no Brasil. Durante a discussão realizada nesta semana o texto assinado pelo presidente do CCS, Murillo de Aragão, para o documento, causou polêmica. Isto porque o texto aponta uma alegada "hegemonia esquerdista" nas redações dos veículos de comunicação do país, como um dos fatores que historicamente comprometeram uma abordagem mais ampla dos temas públicos.

A abordagem de Aragão foi contestada pela presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga, e pelo também jornalista Davi Emerich. Para Braga, a linha editorial de todos os veículos de comunicação brasileiros "são dadas pelos donos, pelos empresários que controlam os meios". Já Emerich apontou, entre outros fatores, que a cobertura dos temas econômicos é "monocórdica", priorizando sempre os interesses dos bancos e do mercado financeiro como um todo.

Braga ainda citou o estudo "Perfil do Jornalista Brasileiro", uma parceria da Fenaj com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), para se contrapor à tese de Aragão. "Esta pesquisa mostra que o jornalista se identifica como "progressista". Mas esta mesma pesquisa mostra que ele não milita nem em igreja. Não milita em lugar nenhum, nem em sindicatos ou outras associações. O produto jornalístico veiculado no Brasil mostra que o esquerdismo passa longe. Nas coberturas das reformas trabalhista (lei 13.467) ou da Previdência (PEC 6/2019), por exemplo, as reportagens nos veículos privados praticamente só ouviam pessoas a favor. Se o esquerdismo predominasse, não seria assim",  afirmou Braga.

Emerich ainda acrescentou que os cursos de comunicação social no país seguem mais as abordagens quantitativas consagradas nos EUA do que qualquer outra abordagem de viés marxista. Ele ainda considera ruim que o suposto "esquerdismo" das redações brasileiras seja alegado num momento em que o governo brasileiro — na sua avaliação, de "extrema direita" — taxa como "comunista" qualquer manifestação divergente.

A resposta de Aragão - Na resposta a Braga e Emerich, o presidente do CCS disse ter feito uma abordagem histórica calcada no pluralismo. E que quando fala em esquerdismo, refere-se mais à linha norte-americana, do "liberal de esquerda", que a seu ver também predomina na mídia dos EUA.

"Querer negar que as redações brasileiras são influenciadas pelo esquerdismo desde a década de 1930 não é nem querer tapar o sol com a peneira, é não querer reconhecer o sol. Assis Chateaubriand [fundador dos Diários Associados], por exemplo, sempre disse que "não se faz jornal neste país sem comunistas". Roberto Marinho [fundador do Grupo Globo], quando foi pressionado pelo regime militar sobre "infiltração esquerdista", disse: "cuidem dos seus comunistas que eu cuido dos meus". Na década de 1980, as redações eram decoradas com estrelas vermelhas e posteres do Che Guevara. E recentemente Sérgio D'avila [diretor do Grupo Folha] confirmou que as redações no Brasil são formadas por uma elite intelectual de jovens progressistas de esquerda. Qual será o problema em reconhecer isto?",  indagou.

O presidente do CCS garantiu que ser esquerdista não é um problema, desde que isso não interfira nas coberturas a ponto de comprometer abordagens amplamente pluralistas. Também considerou "estranho" que outros problemas apontados no seu texto não tenham chamado a mesma atenção.

"Também falo do poder das verbas públicas mediando o noticiário, visando conter prejuízos políticos. Critico o viés sensacionalista que muitas vezes predomina na cobertura política, que explora paixões primárias na opinião pública. Isto se deu, por exemplo, na cobertura da Operação Lava Jato. E ainda critico a ausência de instrumentos de financiamento para estimular a liberdade de imprensa e, no fundo, lamento a precariedade do hábito de leitura neste País",  finalizou Aragão.

O estudo sobre o estado atual da liberdade de imprensa no Brasil atende a um pedido da senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA). O documento ainda conta com contribuições de entidades patronais e análises enviadas por diretores de diversos veículos. A intenção do CCS é entregá-lo oficialmente ainda durante esta semana à senadora e ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

Veja Também

Maia quer votação de pacote anticrime na Câmara na próxima semana
Aprovado reajuste para prefeito, vice e servidores
Sem acordo com oposição, Bolívia pode ter eleições por decreto
Brasil e China firmam acordos em áreas como política, comércio e saúde
Brasil reconhece nova presidente da Bolívia
Sob protestos, aumento de tributos é aprovado
Evo Morales renuncia ao cargo de presidente da Bolívia
Agenda Saúde e agropecuária são temas de audiência Eventos devem discutir realidade do setor rual a situação do combate a Dengue, Zika e Chikugunia
Mesmo livre, Lula não pode se candidatar à sucessão presidencial
Justiça manda soltar ex-ministro José Dirceu