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19 de junho de 2018 • Ano 7
Diretor de RedaçãoUlysses Serra Neto
Papiros de Lama

Delator recolhia propina em quatro frigoríficos e entregava a Puccinelli

Empresário recebia para atuar como operador do esquema de repasse de propina

14 Nov2017Valdelice Bonifácio18h29
Puccinelli foi preso na Operação Papiros de Lama, 5ª Fase da Lama Asfáltica, baseada na delação de Ivanildo Miranda (Foto: Marco Miatelo)
  • Ivanildo da Cunha Miranda revelhou detalhes do pagamento de propinas e nomes dos envolvidos durante depoimento de delação premiada
  • Puccinelli foi preso  na Operação Papiros de Lama, 5ª Fase da Lama Asfáltica, baseada na delação de Ivanildo Miranda (Foto: Marco Miatelo)
  • Puccinelli e o filho chegando ao Centro de Triagem do Complexo Penal de Campo Grande (Foto: Marco Miatelo)
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Na colaboração premiada que embasou a Papiros de Lama, quinta fase de Operação Lama Asfáltica, o empresário e pecuarista Ivanildo da Cunha Miranda, 59 anos, relata em detalhes o esquema de recebimento de dinheiro dos frigoríficos Bertin, Independência, Marfrig e JBS feito a mando do ex-governador André Puccinelli (PMDB). Ivanildo era agente ativo no esquema. Ele recolhia pessoalmente os valores junto aos empresários e entregava ao então governador. Parte do dinheiro repassado pelos frigoríficos, inclusive, serviu para quitar o empréstimo de R$ 1 milhão que Ivanildo fez a Puccinelli na campanha eleitoral de 2006.

O depoimento dele foi fundamental para as investigações que culminaram na prisão preventiva (sem data para terminar)  de André Puccinelli e o filho dele André Puccinelli Júnior. Foram presos ainda os advogados Jodascil Gonçalves Lopes e João Paulo Calves, mas em caráter temporário com validade de cinco dias. Para a Polícia Federal (PF), trata-se de uma organização criminosa que teria lesado os cofres públicos em pelo menos R$ 235 milhões.

Conforme o delator, em 90% das vezes, os envelopes e caixas com dinheiro eram levados ao apartamento de Puccinelli, no edifício Champs Élysées, na Rua Euclides da Cunha, em Campo Grande. Era o próprio ex-governador quem pegava o dinheiro. A função de operador do esquema era remunerada. Ivanildo admite que recebia valores para arrecadar o dinheiro junto aos frigoríficos. “No início era entre R$ 60 mil e R$ 80 mil por mês e a partir de 2010 e 2011 aumentou para R$ 200 mil a R$ 250 mil, sempre através das contas correntes”, relatou o empresário no depoimento de colaboração premiada.

Ivanildo foi apresentado a Puccinelli pelo atual governador Reinaldo Azambuja (PSDB), então candidato a deputado estadual em 2006. Puccinelli que concorria ao governo do Estado perguntou se Ivanildo não gostaria de ser seu colaborador. O empresário aceitou dando início à parceria entre os dois. “Levei em algumas pessoas para fazer doações a Puccinelli e emprestei R$ 1 milhão para a campanha”, disse. Ivanildo contou que estava tão ativo na campanha que chegou a pensar que seria escolhido Secretário de Fazenda quando Puccinelli fosse eleito. Tal convite não veio, mas, em 2007, o empresário ganhou outro posto, o de interlocutor entre o governador e os frigoríficos.

O governador o encontrou no mês de junho daquele ano, disse era muito grato pelo ajuda na campanha eleitoral e informou que gostaria de pagar o empréstimo de R$ 1 milhão concedido por Ivanildo no ano anterior. Puccinelli então pediu que o empresário procurasse os frigoríficos e recolhesse dinheiro, sendo que deveria retirar parte do valor para quitar a dívida em parcelas. A partir daí, Ivanildo assumiu o posto de operador do esquema de recolhimento de propinas que eram repassadas em troca de incentivos fiscais concedidos pelo governo de Puccinelli.

Bertin, Independência, Marfrig e JBS colaboraram financeiramente com Puccinelli desde a campanha eleitoral. “Teve doações oficiais e por fora”, afirma o delator. Na ocasião, o dinheiro foi repassado através da Associação Brasileira dos Exportadores de Carne, a Abiec.  Embora não se recorde dos valores com exatidão, ele calcula algo na casa dos R$ 5 milhões, dinheiro que não ficava só com Puccinelli, pois era dividido entre os candidatos da coligação.

Ivanildo se recorda de ter ido a São Paulo recolher R$ 500 mil, ocasião em que falou diretamente com Joesley Batista, dono da JBS. De volta a Campo Grande, ele entregou o dinheiro a Puccinelli no apartamento dele.

Mais tarde, a partir de junho de 2007, ele passou a viajar frequentemente para recolher o dinheiro a mando de Puccinelli. “Ele passava a lista por escrito eu ia lá e pegava. No JBS, eu não tinha mais contato com Joesley, era com o Denilton. No Marfrig, era o Marcos Molina. no Bertin, o Natalino Bertin e no Independência falava sempre com o Neto, filho do Antônio Russo”, detalhou.

No depoimento, Ivanildo, inclusive, entrega um diário de bordo que, segundo ele, comprovam todas as viagens feitas para buscar o dinheiro. O empresário cita as várias idas a Lins para recolher os valores entregues por Natalino Bertin. Na época, os pagamentos mensais giravam em torno de R$ 100 mil (Marfrig); R$ 150 mil (Bertin); R$ 150 mil (Independência) e R$ 80 mil (JBS). Tudo vinha direto para as mãos de Puccinelli, segundo o delator.

Entre os quatro, o JBS, na época uma empresa de médio porte, era o único que tinha dificuldades em repassar dinheiro vivo, por isso, pedia para fazer os depósitos em conta corrente. Ivanildo cedia suas contas pessoais. Posteriormente, sacava os valores e levava ao governador.

A JBS que começou com o menor dos repasses cresceu muito em questão de poucos anos, tanto que em 2010 e 2011, os valores entregues a título de propinas saltaram para cerca de R$ 400 mil por mês, conforme o delator.

Nesta fase, a conta de Ivanildo já não era a única usada para o recebimento dos valores. Em 2012, o operador entregou ao grupo JBS uma lista com nomes de pessoas físicas e jurídicas que deveriam receber os depósitos em conta tais como Gráfica e Editora Alvorada, Gráfica Jafar, Ícone, Ibope, MB, Damião Brum Vieira, Gerson Francisco de Araújo, que juntos deveriam perfazer o valor de R$ 20 milhões.

No depoimento, o empresário assegurou que não tratou de distribuição dos valores recolhidos com nenhum membro do governo a não ser com o próprio André Puccinelli. Houve uma ocasião em que deixou os valores com uma secretária na Governadoria, mas isso a mando do governador.

Amizade - Ivanildo se tornou tão costumeiro na JBS que criou laços de amizade com a família Batista, a ponto de Joesley, ter ido ao casamento de uma das filhas dele. O empresário atuou como corretor da JBS em MS colaborando nos negócios da empresa no Estado. Ele intermediou a compra de frigoríficos pela JBS, como as plantas de Coxim, Rio Verde e Ponta Porã, trabalho pelo qual foi remunerado.

Ivanildo também negociou a saída do executivo Mário César Lopes da Eldorado Celulose, negócio avaliado em R$ 300 milhões, pelo qual recebeu R$ 10 milhões de comissão. O dinheiro foi pago mediante notas fiscais frias do produtor.

O delator entregou fotografias que comprovariam sua ligação com a família Batista. Há ainda cópias de e-mail trocados entre ele e as empresas do grupo JBS e outros documentos como forma de provar que há serviços prestados não relacionados ao pagamento de propina.

Confira abaixo um dos vídeos da delação de Ivanildo Miranda:

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