Especial

Cooperativas financeiras têm cada vez mais crédito em MS

Instituições conquistam novos sócios a cada dia, geram empregos e movimentam a economia no Estado

O pecuarista José Nadra, de 45 anos, segura feliz o cheque de R$ 50 mil. O dinheiro foi um presente da sorte e da longa parceria que ele mantém com sua cooperativa de crédito. “Já comprei vários serviços da cooperativa, entre os quais um seguro de vida. Sem que eu esperasse fui sorteado na promoção do seguro e ganhei o prêmio em dinheiro”, relata.

Nadra é associado à cooperativa Sicredi Campo Grande há mais de 20 anos. Ele resolveu cooperar estimulado pelo pai e descobriu as vantagens nos primeiros meses. “As taxas dos serviços são menores que as de um banco convencional. Além disso, é um ambiente onde não me sinto um número e sim uma pessoa”, define.

Um dos primeiros serviços contratados por Nadra foi o crédito rural. O pecuarista precisava construir um mangueiro para facilitar o manejo do gado na propriedade. Inicialmente, ele bateu às portas de bancos estatais que operavam a linha de financiamento rural. “Porém, ali não liberaram. Então, procurei a cooperativa, obtive o empréstimo e fiz a obra que eu precisava”, relembra.

Cooperado há mais de 20 anos, o pecuarista José Nadra ganhou R$ 50 mil na promoção do seguro

As exigências para conseguir um empréstimo nas cooperativas não são menores do que nos bancos. Contudo, o que faz a diferença é o atendimento personalizado que estuda o caso do cooperado e busca formas de atendê-lo. "As exigências são as de qualquer banco, porque a cooperativa é um negócio e precisa se preservar. Contudo, a gente incorpora a dificuldade daquele associado e tenta resolver junto com ele", explica o diretor-presidente da Sicredi Campo Grande Wardes Antônio Conte Lemos.

Conforme Wardes, a cooperativa tem como objetivo atender o maior número possível de pessoas. Sendo assim, haverá sempre um esforço para que o associado consiga o que está precisando. "A gente trabalha para o associado crescer. Se ele cresce, a cooperativa cresce junto", valoriza. “A cooperativa precisa de quem precisa dela”, acrescenta. 

Uma cooperativa se forma quando um grupo de pessoas -- no mínimo 20 -- tem um objetivo comum. No caso, das instituições de crédito, o objetivo é ajuda financeira. O consumidor que se associa não é um cliente como em um banco e sim um cooperado, ou seja, usuário e dono do negócio.

Wardes Antonio Conte Lemos, diretor-presidente do Sicredi Campo Grande

Criada para o homem do campo - Wardes também é pecuarista. Há 21 anos, ele se uniu a outros 19 produtores rurais e fundou o Sicredi Campo Grande, que nasceu voltado para o homem do campo. Na ocasião, cada associado integralizou um salário mínimo R$ 135 e a soma foi o capital inicial daquela nova cooperativa de crédito rural. 

Porém, há sete anos, a cooperativa foi autorizada pelo Banco Central a fazer a livre admissão de modo que qualquer pessoa, independente da atividade, pode se associar. A abertura para o público em geral fez a cooperativa avançar rapidamente. Atualmente, compõem o Sicredi Campo Grande 42 mil associados. 

A cooperativa tem 14 agências localizadas em Campo Grande e cidades da região tais como Rochedo, Corguinho, Bandeirantes, Ribas do Rio Pardo e Terenos. Ao todo, a cooperativa emprega 280 pessoas, número que poderá crescer com a abertura, em breve, da 15 agência.

Sicredi Campo Grande tem 14 agências na Capital e região

"O que fazemos todos os dias é explicar para as pessoas que numa cooperativa, elas não são clientes como nos bancos e sim associados, donos deste negócio. A cooperativa não visa lucros. No final de cada ano, ela divide as sobras com seus associados. Já os bancos querem lucrar e o dinheiro é levado para longe. Essa é outra diferença importante, pois no caso das cooperativas, o dinheiro que sobra fica na própria localidade", detalha.

Serviços e receitas – As cooperativas de crédito oferecem basicamente os mesmos serviços de qualquer banco, cartão de crédito, talão de cheque, conta corrente, empréstimos, seguros e outros.  A receita é obtida através destes serviços e outros atendimentos como recebimento de boletos e venda de máquinas de cartão, por exemplo.

Para entrar no negócio, basta procurar uma cooperativa e se associar comprando uma cota-parte ou, para usar outro termo, integralizando o capital. Na maioria das cooperativas consultadas pela reportagem, a cota mínima informada foi de R$ 20,00 para pessoa física. Todos os meses, esse mesmo valor é integralizado ao capital social da cooperativas.

Cooperativas de crédito oferecem basicamente os mesmos serviços de qualquer banco

Como já foi mencionado nesta matéria, a cooperativa não visa lucro.  As sobras do ano são divididas entre os cooperados. A fatia a ser partilhada entre os associados é definida em assembleia geral. São os próprios cooperados que definem se a sobra vai integralmente para a conta dos associados ou se parte dela vai para a cota social, o que fortalece a cooperativa de crédito. 

O rateio entre os cooperados é feito de forma proporcional  à movimentação que o associado fizer na cooperativa, quanto mais aplicar ou comprar serviços maior será sua fatia. Além disso, quanto mais os associados investem, mais forte fica a instituição, podendo oferecer produtos e serviços competitivos. Por outro lado, se associado deixar a cooperativa, sua cota-capital é devolvida integralmente a ele.

Vale mencionar que para haver divisão de dinheiro é preciso que a cooperativa chegue ao final do ano com resultado positivo, ou seja,  sobras, do contrário, se houver prejuízo, ele também será dividido entre os associados. Aí está um ponto que causa certo temor em relação às cooperativas.

Cooperativas de crédito são reguladas pelo Banco Central

"Eu diria que não há motivos para medo. As cooperativas de crédito são muito fiscalizadas pelo Banco Central. No nosso caso, por exemplo, temos  gestão profissionalizada e nossa própria auditoria interna. Além do mais, basta olhar o mercado a volta. Você vê bancos fechando agências em vários locais, já com as cooperativas acontece o contrário, elas estão abrindo mais e mais unidades", defende o presidente do Sicredi Campo Grande.

O prejuízo só é rateado entre os associados se o fundo de reserva for insuficiente para cobri-lo. Todos os depósitos e créditos mantidos nas cooperativas têm a proteção do Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop), que garante até R$ 250 mil por CPF.

Cooperado deve participar - O economista e consultor financeiro Sérgio Bastos já esteve preocupado com o avanço rápido das cooperativas de crédito no Estado. "Eu via com certa atenção o aumento do número das agências. Isso foi muito agressivo, parecia haver algum perigo. Mas, hoje entendo que foi uma questão de investimento para expansão e as cooperativas se firmaram", analisa. 

Cooperativas se firmaram, na avaliação de economista; ele sugere que associados exerçam seu poder de voz

Com as cooperativas firmadas, Bastos não vê desvantagens para quem preferir cooperar em vez de ser cliente de um banco convencional."É um negócio interessante porque o cooperado é dono de uma parte do negócio. Ele pode opinar nos rumos da empresa. Não é como banco que as decisões ocorrem de cima para baixo", compara.

Por isso mesmo, o economista sugere que o cooperado exerça seu poder de voz. "Infelizmente sabemos que as pessoas participam pouco. O maior risco que pode atingir o associado é um eventual desempenho ruim da cooperativa, porque nesse caso, ele também arca com o prejuízo. O ideal é que ele participe das reuniões e busque informações sempre, afinal, o negócio também é dele", aconselha.

De fato, o cooperativismo de crédito explodiu em MS e continua franca expansão. Em todo Estado, já são cerca de 90 agências de 10 cooperativas. Campo Grande, inclusive, é destaque nacional do setor. É a capital brasileira com mais agências de cooperativas de crédito proporcionalmente à sua população, são 25 no total.

Em todo Estado, já são cerca de 90 agências de 10 cooperativas diferentes

Coopetição (Competir cooperando) - A abertura de novas agências demonstra que a quantidade de pessoas interessadas em se associar está crescendo. O número de cooperados aumenta a cada ano, segundo o sistema OCB-MS – Organização das Cooperativas Brasileiras em Mato Grosso do Sul. Já são mais de 228 mil em todo Estado. Essa engrenagem do cooperativismo é responsável por 1.526 postos de trabalho diretos em MS.

O desempenho financeiro também é positivo. Conforme o sistema OCB-MS, em 2018, as cooperativas de crédito do Estado dividiram cerca de R$ 150 milhões entre seus associados; somente o Sicredi Campo Grande distribuiu R$ 26 milhões para 30 mil associados à época.

Nacionalmente, estimativas apontam que as cooperativas ocupam cerca de 7% do mercado financeiro. Conforme o Fundo Garantidor de Cooperativismo Crédito (FGCoop), com base em dados de 2018, o Brasil tem 967 cooperativas de crédito, 5,7 mil postos de atendimento e 9,7 milhões de associados.

O presidente da OCB-MS, Celso Ramos Régis, também é fundador de uma cooperativa de crédito, a Sicredi União. Em vídeo-entrevista ao Diário Digital, ele fala sobre a importância de cooperar para crescer todos os setores da economia. O dirigente é defensor do que ele chama de coopetição – competir cooperando. “Se fizermos isso, haverá mais empreendimentos viáveis que vão gerar resultado para a sociedade”, aposta.


Médicos fundaram cooperativa de crédito – Entre as 10 cooperativas de crédito que atuam em Mato Grosso do Sul está a Uniprime Centro-Oeste, fundada por médicos que não queriam mais depositar seus ganhos no sistema bancário comum. Eles queriam ser donos de sua própria instituição financeira e, assim, criaram a Unicred, em 1993.

Os médicos já trabalhavam cooperados na Unimed – operadora de plano de saúde. A nova cooperativa começou em uma salinha dentro da própria Unimed inicialmente voltada apenas para os médicos. Mais tarde, em 2009, mudou de categoria, passando a aceitar como cooperados outros profissionais, fora da área da saúde.

Em 2012, assumiu a marca Uniprime Centro-Oeste e atualmente opera com livre admissão, podendo aceitar qualquer pessoa que queira cooperar. “Hoje, somos 7,3 mil cooperados e temos agências em Campo Grande, Três Lagoas, Aquidauana e Corumbá.  Outro passo que demos foi avançar para o Mato Grosso. Neste ano, abrimos uma agência em Rondonópolis e estamos nos organizando para inaugurar outra em Sorriso”, comenta o superintendente Gualberto Nogueira de Leles.

O médico Gualberto Nogueira de Leles, atual superintendente da Uniprime, é um dos fundadores da cooperativa

Ele próprio é um dos fundadores da antiga Unicredi. Médico cardiologista por 40 anos, hoje se dedica à administrar a Uniprime Centro-Oeste, um negócio do qual tem orgulho, por acreditar que as cooperativas existem para ajudar o associado e não para simplesmente acumular capital. “O banco sobrevive de tarifas, a cooperativa de negócios”, avalia. Em 2018, a Uniprime dividiu R$ 11 milhões em sobras com seus associados.

Capitalismo menos selvagem – Outra cooperativa de destaque em MS é a Sicoob Ipê. Ela nasceu Cocresul para atender os servidores públicos do Estado em 1988 e assim permaneceu até 2004, quando assumiu a marca Sicoob. A cooperativa é dirigida por Elza Jorge, nome conhecido do movimento sindical em MS, tendo sido presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação de MS, a Fetems.

Com longa militância a favor dos trabalhadores, ela enxerga nas cooperativas uma forma diferente de capitalismo. Isso porque, como já foi mencionado, essas instituições não visam lucros, dividem as sobras e emprestam dinheiro com taxas baixas, acessíveis às camadas populares. “Eu diria que é um capitalismo menos selvagem do que o comum. Porém, ainda assim é capitalismo, contudo, um capitalismo consciente”, define.

Elza Jorge, nome conhecido do movimento sindical, preside o Sicoob Ipê, que nasceu Cocresul para atender o funcionalismo

Outra qualidade do sistema cooperativo, segundo Elza Jorge, é o investimento na comunidade. As cooperativas apoiam ações sociais. O Sicoob, por exemplo, apoia os projetos 'Capoeira Sim, Violência Não' e 'Atleta Fenomenal' que atendem crianças nas periferias da Capital. Neste ano, estão sendo investidos cerca de R$ 75 mil para a realização destes projetos. 

A Sicoob Ipê continua recebendo servidores públicos como cooperados, mas está aberta também a empresas e funcionários das firmas cooperadas. A cooperativa tem duas agências no Estado e emprega 23 pessoas. Em 2018, distribuiu sobras no valor de R$ 237,4 mil entre 3.420 cooperados.

Credicoamo – Além de Sicredi, Uniprime e Sicoob, outra cooperativa estabelecida no Estado e associada à OCB-MS é a Credicoamo, com sede no Paraná. Voltada para o crédito rural, a Credicoamo tem unidades de atendimento em Aral Moreira, Caarapó, Maracajú, Amambai, Laguna Carapã. Contudo, a cooperativa não encaminhou dados solicitados pela reportagem até a publicação desta matéria.

Cooperativas de crédito empregam 1526 pessoas no Estado segundo a OCB-MS