Cooperativismo

Cooperativa de orgânicos busca sobrevida

Organocoop será liquidada para ressurgir mais forte na produção de hortifrutis livre de agrotóxicos

Às 3h da madrugada Vanderlei Azambuja Fernandes já está de pé. É dia da feira de orgânicos. É preciso ajeitar as folhagens, legumes e frutas no veículo e seguir ao encontro dos fregueses. Ele é um dos sócios da Organocoop, única cooperativa de produtores de hortifrútis sem agrotóxicos de Mato Grosso do Sul, que já foi apontada como uma grande alavanca para o setor, mas entrou em liquidação e está em busca de uma sobrevida.

Fazer a cooperativa ressurgir é o sonho de Vanderlei que acredita no cooperativismo como forma de crescimento dos pequenos e distribuição de renda, mesmo num negócio difícil como a produção de orgânicos. “O problema é que muitos sócios desistiram. Então, vamos nos reorganizar. A Organocoop já tem nome no mercado desde 2010. Vamos fazê-la renascer novamente, mas de um modo diferente”, relata.

Ele que é ex-presidente da cooperativa foi nomeado liquidante e, mesmo lidando com os embaraços burocráticos, segue firme na produção e venda de hortifrútis. Num terreno de cerca de 1 hectare, no Bairro Indubrasil, ele mantém produção variada com hortas de alface, couve, espinafre, rúcula, chicória, almeirão, cenoura, beterraba, tomate, banana, mamão e outros.

Vanderlei Azambuja herdou dos pais a vocação para plantar, cultivar e vender

Vanderlei afirma que 'nasceu produtor' de hortifrutis. O talento para cultivar a terra está no DNA, é herança dos pais. Esse era o ganha-pão da família quando moravam no interior do Estado, plantar e vender. Mas, foi apenas em 2007, já morando na Capital, que ele despertou para o mercado de orgânicos. "Os clientes começaram a perguntar porque eu não vendia produtos livres de agrotóxicos e aí fui me interessando ", relembra.

A Organocoop nasceu estimulada pela prefeitura que, percebendo o crescimento da produção, passou a organizar os produtores. A ideia era que as famílias obtivessem a certificação juntas e que passassem fazer vendas para o mercado local e também para o Poder Público. A comercialização em cooperativa foi bem recebida inicialmente, mas esbarrou na falta de produção.

Com isso, a Organocoop se viu praticamente sem funcionamento e, pior de tudo, com dívidas. Nesta situação, a alternativa encontrada foi a liquidação, que nada mais é do que um acerto formal de contas, com levantamento dos bens, pagamento de dívidas e outras medidas para finalizar pendências.

Vanderlei acredita no cooperativismo como forma de crescimento dos pequenos

Capacitação – O caso Organocoop está sendo monitorado pela prefeitura através da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia (Sedesc). O engenheiro agrônomo da secretaria, João Duarte, lembra que a cooperativa foi criada para fazer gestão da produção de orgânicos e ainda das feiras criadas para comercializar os produtos sem agrotóxicos.

“Ela nasceu para uma gestão autônoma, de responsabilidade dos próprios associados. A partir do momento em que se desligou do Poder Público, era necessário uma capacitação. Acredito que faltou esse preparo (...) Hoje, a produção de orgânicos passa pela Organocoop que já teve progressos”, analisa.

Apesar dos desacertos dessa primeira experiência, Vanderlei não desanimou. Para ele, comercializar em cooperativa é o caminho certo para o pequeno produtor se impor no mercado. “Somente numa cooperativa, o pequeno se torna grande e competitivo. Unidos, os cooperados podem negociar de forma vantajosa com as grandes empresas. Na hora de comprar insumos, por exemplo, a aquisição em grande quantidade é mais barata”, exemplifica.

Produção de orgânicos no Estado ainda é pequena para a demanda

Por isso, ele e os remanescentes da Organocoop farão a cooperativa renascer, desta vez, com mais cuidado e planejamento do que na tentativa anterior.

Feiras de orgânicos – Criadas há 11 anos por iniciativa da prefeitura de Campo Grande, as feiras de orgânicos já têm uma freguesia cativa. O primeiro ponto de vendas e que permanece até hoje foi o estacionamento da prefeitura da Capital, espaço aberto pelo então prefeito Nelsinho Trad, hoje senador pelo PSD.

O Diário Digital esteve na feira da prefeitura num sábado de Agosto. Os compradores aparecem tão logo as barracas são montadas, antes mesmo de o sol raiar. “Venho aqui logo cedo porque sempre encontro produtos de qualidade”, diz a aposentada Maria Lúcia dos Santos. “Tudo aqui é bom, saudável e tem preços acessíveis”, elogia o bancário João Romero de Lima.

Em pouco tempo de observação é possível constatar que para orgânicos não há falta de clientes, pelo contrário, existe uma demanda crescente por produtos saudáveis e frescos. “Clientela tem muita. Nossa produção atual é que não dá conta de atender o mercado”, explica Vanderlei.

Feira no Paço Municipal já tem clientela cativa que chega logo cedo para comprar os produtos

Uma dificuldades é o escalonamento da produção. Pequenos produtores não têm condições de investir em tecnologia para manter uma escala de produtividade. Eis um desafio desse segmento. Cada família de cooperados produz cerca de 12 toneladas por ano, quantidade pequena para a demanda.

Ao lado da barraca de Vanderlei, está a de outro produtor cooperado José Roberto de Oliveira que faz parte da Organocoop desde o seu surgimento. Ele produz em um assentamento na saída para Rochedo e também defende a cooperativa como melhor alternativa para o fortalecimento de todos. “A gente consegue as coisas mais barato”, resume José Roberto que produz “folhas em geral, legumes e frutas.”

Além do Paço Municipal, as feiras de orgânicos também estão estabelecidas na Praça do Rádio e Praça da Bolívia em dias de evento. E, mais recentemente, outro endereço para produtos orgânicos passou a ser o Pátio Central Shopping, bem no Centro de Campo Grande. A feira de orgânicos e agricultura familiar no shopping é realizada toda terça-feira, sempre das 8h às 19h. (Veja reportagem).

José Roberto de Oliveira faz parte da Organocoop desde a criação da cooperativa

Sobrevida – Uma explicação para o fato de a Organocoop ter chegado à fase de liquidação foi a falta de estímulo dos sócios. A cooperativa já teve 101 associados. Atualmente, tem 58, mas o último levantamento constatou que apenas seis estavam produzindo orgânicos.

Vanderlei detalha que a produção livre de agrotóxicos é difícil. A atividade depende da certificação que tem muitas exigências e acaba afastando produtores. Contudo, há quem permaneça no segmento e Vanderlei está em busca destes resistentes para reorganizar a cooperativa.

Segundo Vanderlei, liquidar a Organocoop foi a opção para impedir que as dívidas continuassem se amontando. Até agora, o valor do débito é de R$ 12 mil, resultante da soma dos custos com contador, alvarás, código de barras, IPVA e outros. Uma medida aprovada em assembleia é a venda do caminhão da Organocoop que vale cerca de R$ 80 mil. O dinheiro vai pagar a dívida e ser dividido entre os associados.

Cooperados estão em busca de novos parceiros para reerguer a Organocoop

Ao mesmo tempo em que trata da liquidação da cooperativa, Vanderlei busca parceiros para a nova Organocoop que vai surgir ao final deste processo. A cooperativa vai renascer com plano de viabilidade econômica, apoio gerencial da Organização das Cooperativas do Brasil de MS (OCB-MS) e apoio técnico da Agraer.

“Estamos conversando com produtores de cidades do interior do Estado próximas a Campo Grande, como Ribas do Rio Pardo, Sidrolândia e Terenos”, informa. Outro ponto importante que vai fazer a Organocoop ressurgir diferente é o novo estatuto, levando em consideração as leis vigentes.

O estatuto, aliás, é decisivo no sucesso de uma cooperativa, afirma o economista Marco Fabio Mazzaro. Há 12 anos, ele trabalha na cooperativa  de crédito Uniprime, em Campo Grande, e há três é diretor financeiro da empresa. Em vídeo-entrevista concedida ao Diário Digital, ele explica o passo a passo para uma cooperativa ser bem-sucedida. Assista abaixo:

OCB-MS – A OCB-MS também está acompanhando de perto o caso da Organocoop. Conforme o advogado da entidade Diego Linhares da Cunha, os cooperados receberam orientação técnica, jurídica e contábil para liquidar a cooperativa. “Como a cooperativa não está sujeita à falência, é necessário realizar uma assembleia e aí definir este ajuste de contas que não é definitivo. Na liquidação se faz o levantamento de bens, se apura o passivo e o ativo e se elabora o plano de pagamentos”, detalha.

De acordo com Cunha, já no nascimento, a cooperativa precisa ter um plano de negócio inicial. “É necessário fazer estudos e nivelar a cooperativa. Todos os sócios têm que estar alinhados com o objetivo”, destaca. “Se bem organizado, o cooperativismo é um negócio 100% viável”, completa.

MS tem atualmente 105 cooperativas registradas no Sistema OCB/MS, distribuídas em vários segmentos econômicos. Juntas, as cooperativas tem mais de 200 mil cooperados e empregam mais de 7 mil pessoas, representando 10% do PIB Estadual.

Conforme Vanderlei, produção livre de agrotóxicos é difícil, mas vale à pena