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28 de maio de 2020 • Ano 9
Diretor de RedaçãoUlysses Serra Netto
Especial Campo Grande 120 anos

Voluntário recicla bicicletas para doação

Trabalho é movido pela paixão por bicicletas e vontade de ajudar

23 Ago2019Paula Fernandes14h39
Valdemir também recolhe livros no lixo para doação (Foto: Marco Miatelo)
  • Transformar bicicletas é a razão de vida de Valdemir
  • Valdemir também recolhe livros no lixo para doação (Foto: Marco Miatelo)
  • Na missão voluntária o apoio da esposa (Foto: Marco Miatelo)
  • Valdemir anota tudo no caderno e quer escrever um livro (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
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  • Moradores ajudam doando peças e bicicletas (Foto: Marco Miatelo)
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  • A bicicleta do sonho de criança, só chegou aos 40 anos (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
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  • Livros também são encontrados no lixo (Foto: Marco Miatelo)
  • No registro das doações, a alegria de quem recebe (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
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  • Das mãos de Valdemir, bicicletas renascem e são doadas (Foto: Marco Miatelo)
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  • Dedicação e técnica para transformar cada bicicleta (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
  • Mãos na bicicleta e olhar para um futuro mais solidário (Foto: Marco Miatelo)
  • De doações foi possível recuperar modelo da década de 70 (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)

No Bairro Jardim das Virtudes, região Noroeste  de Campo Grande, um dos moradores  é bastante conhecido justamente pela sua virtude: a solidariedade. Sem recursos e desempregado,  Valdemir Dias, 41 anos,  recicla bicicletas que são doadas  para pessoas carentes, principalmente crianças.  O voluntário recebe doações de bicicletas usadas que são desmontadas dando  vida a outras  bikes.  Mas nem sempre foi assim.  Há sete anos,  quando tudo começou, as carcaças de bicicletas ou qualquer peça que poderia ser usada na reciclagem eram recolhidas diretamente do lixo. Assim nasceu a  ASPE - A Semente: Projeto Esperança.

Apaixonado por bicicletas desde criança, aos 8 anos sonhava com um modelo BMX mas a mãe não tinha condições financeiras. A família trabalhava na roça em Mirassol D’Oeste, no Mato Grosso, e a vida era difícil.  Aos 12 anos  Valdemir conseguiu comprar a primeira :  uma   Caloi 10  branca com marcha. Ele lembra que começou a mexer na estrutura,  tirou  a marcha e  conseguiu montar uma segunda  bicicleta. Dessa forma  a paixão foi se somando à  técnica e passou a entender cada detalhe do funcionamento de uma bike. Já a BMX tão desejada só veio mesmo aos 40 anos, realizando o sonho de menino. 

Na adolescência Valdemir chegou em Campo Grande para trabalhar e aqui continuou a desenvolver a habilidade na mecânica de bicicleta. Mas aliar essa aptidão à solidariedade começou em  2012, já adulto, casado, com uma filha pequena  e ganhando a vida  como vendedor.  Quando  voltava para casa após o trabalho  resolveu  conversar com um grupo de moradores de rua e  entender como viviam sem recursos e marcados pela dependência química.   “Eu saí do trabalho vi um grupo de mais ou menos 8 pessoas.    Deus tocou no meu coração, então parei e perguntei se podia comprar um refrigerante e conversar um pouco. Eles ficaram ressabiados e pediram uma pinga mas não comprei. Doei  dois refrigerantes, a quantia de R$ 2,50 e sentamos para conversar. Ali eu decidi que queria fazer algo a mais pelas pessoas”, relembra  Valdemir.   

E fazer esse algo mais foi tomando proporções. Decidiu que para distribuir  um pouco de alegria usaria o conhecimento que dominava: o de reciclar bicicletas. Do recolhimento de peças no lixo,  outras foram montadas. E essa ação que começou no Jardim das Virtudes continuou no Indubrasil, para onde se mudou com o fim do casamento e quando o desemprego aconteceu. Passou  a sobreviver de bicos, trabalhos temporários. Mas  foi nessa comunidade que  encontrou a ajuda de três amigos que com ele   aprenderam a  recuperar bicicletas que seriam doadas. 

Ao longo dessa trajetória Valdemir foi impondo  metas a serem cumpridas.  Em 2016,  tomou como inspiração  o tradicional passeio ciclístico do trabalhador de Campo Grande e planejou fazer um evento parecido, mas com dez bicicletas recicladas e  doadas. No final conseguiu doar 17 e fechou o ano com 21 doações. Em 2017 mais uma meta superada: da estimativa de 50 acabou transformando  75 bicicletas sucateadas em veículos prontos para o uso. No ano seguinte mais uma resultado positivo com 281 doações. Para que essa matemática se concretizasse cada peça foi importante. Um parafuso perdido, uma ruela jogada no lixo, o que não servia para uns, acabava virando um tesouro na hora de montar uma nova bicicleta.

A ajuda vem de todos os lados. Voluntários, amigos, gente que ficou sabendo e acabou sensibilizada com a história   de Valdemir.   No momento da reportagem,  ele recebe a visita  inesperada de mais uma doadora. Maria Cícera da Silva,  que mora  há poucos dias no bairro,  quer  doar uma bicicleta de criança. “Fiquei sabendo do trabalho dele e precisamos apoiar. Essa bicicleta estava parada há muito tempo e acho que pode ajudar”,  ressalta a dona de casa. E ajuda muito, segundo Valdemir. De uma bicicleta que já não funciona podem ser retiradas até 50 peças que vão colocar outras em pleno funcionamento.

E de doações como essa vieram raridades. De apenas um quadro de uma bicicleta fabricada nos anos 1970, Valdemir foi  garimpando  peças para  montar toda  a estrutura. “Essa aqui não vai para doação. Vou cuidar para no futuro montar o primeiro Museu da Bicicleta de Campo Grande”, afirma sorrindo. E assim ele vai cimentando  um projeto que precisa da  legalização  como entidade filantrópica. Assim pode captar  recursos para ser ampliado.  A ideia é proporcionar  ensino da mecânica de bicicleta para qualquer pessoa além de outras atividades como lazer, recreação e ações solidárias. Para isso seria necessária a  doação em dinheiro para processo de oficialização e mais voluntários para trabalhar. 

Atualmente a  voluntária número um  é  a esposa. Casado pela segunda e vez, ele deixou o Indubrasil e voltou par o Jardim das Virtudes. Na casa verde, cor da esperança,  o muro traz o desenho de uma bicicleta,  de um coração e  a sigla do projeto. O portão da varanda fica aberto mostrando a quem passa cada etapa do “ monta e desmonta”  das bicicletas.  Ana Cláudia Nantes, de 41 anos,  trabalha como funcionária pública e quando está em casa   vai aprendendo aos poucos para dar suporte ao marido. “Ele tem um bom coração. Admiro muito o que ele faz e também fiquei inspirada. A nossa vontade e fazer tudo isso crescer ainda mais”,  pontua a esposa.

E no tempo em que buscou cada item de uma bicicleta em meio ao lixo e caçambas de entulho, Valdemir acabou encontrando muitos livros. Ele calcula  ter coletado cerca de 500 exemplares, entre romances, jurídicos e  de conteúdo escolar. Até uma Constituição Federal está entre os achados que vai guardando em uma mala grande. Passou a receber também mais doações de livros da comunidade que também são distribuídos. E com isso, soma aos planos de Valdemir mais uma ação solidária que é montar uma biblioteca aberta comunitária.

Toda essa trajetória vem sendo documentada para um terceiro sonho: o de escrever um livro. No caderno escolar azul de capa dura tudo é a anotado. Cada acontecimento, doação feita,  quantidade de bicicletas recicladas; está tudo descrito e datado pelo próprio Valdemir como uma espécie de diário. As fotos que  revelam a alegria de quem recebeu a bicicleta e dos companheiros dessa jornada acompanham o conteúdo escrito cuidadosamente. “Tudo isso aqui será um livro que já tem título: O colecionador de lixo”, antecipa com emoção.

A ASPE - A Semente: Projeto Esperança recebeu uma congratulação da Câmara Municipal. O reconhecimento é mais estímulo para seguir trilhando o caminho e o desafio que é ajudar quem precisa. “ Nossa intenção é trabalhar vários pontos para formar um cidadão melhor. Dar a capacitação para que a pessoa, seja adulto ou jovem, aprenda a mecânica da bicicleta e tenha uma oportunidade. Em seguida é plantar a semente de que ela pode  ter um pensamento solidário, voltado para quem tem menos que ela”,  explica. 

E sobre o que viveu ao longo desses anos ele reflete: “Já me considero  um vencedor. Enquanto o recurso para oficializar o projeto não chega, vou continuar o que faço com ajuda das pessoas porque ninguém faz nada sozinho e vamos agregando ideias e parceiros”. Ressalta que é aqui em Campo Grande onde   pretende consolidar o seu grande sonho. Apaixonado pela cidade que o acolheu  há 26 anos, não se vê em outro lugar. “Pedalar faz bem para  a saúde, não polui. Retirar essa peças do lixo  ajuda também o meio ambiente. Então a bicicleta é a minha razão para esse projeto e com ela  acho que é possível também ser solidário  ajudando a formar cidadãos  nesta cidade que eu tanto amo”. 

 

Quem quiser colaborar com o projeto, o contato é 99105-1290. 

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