Campo Grande • 03 de dezembro de 2016 • Ano 5
OrganizaçãoIvan Paes BarbosaDiretor de RedaçãoUlysses Serra Neto

Talitha Moya | sexta, 30 de setembro de 2016 - 11h00Esgoto: Ligações factíveis desprezam o complexo mundo subterrâneoImóveis que não se conectam à rede de esgoto comprometem investimentos para universalização e oneram saúde pública

  
(Foto: Luciano Muta)
  • (Foto: Luciano Muta)
  • (Foto: Luciano Muta)
  • (Foto: Luciano Muta)
  • (Foto: Luciano Muta)
  • (Foto: Luciano Muta)
  • (Foto: Luciano Muta)
  • (Foto: Luciano Muta)
  • (Foto: Luciano Muta)
  • (Foto: Luciano Muta)
  • (Foto: Luciano Muta)

Todos os meses, pelo menos 107 milhões de litros de esgoto deixam de ser tratados em Campo Grande.  O volume é resultado de uma grande parcela ociosa das redes de esgotamento sanitário. Na Capital são 24.969 moradias com ligações factíveis, ou seja, estão em áreas com redes coletoras disponíveis, mas não estão conectadas a elas. Esse número representa quase 12% do número de imóveis atendidos pelo serviço em toda cidade.

Atualmente, a Capital tem mais de 214 mil moradias atendidas pelo sistema de esgotamento sanitário, mas apesar de toda expansão da rede, muitas pessoas ainda adotam as fossas sépticas ou rudimentares. A ociosidade não se limita aos bairros mais periféricos. Em bairros nobres e na área central da cidade, há imóveis sob ligações factíveis. Entre os casos constatados pela reportagem, está até mesmo a de uma casa de alto padrão situada no bairro Vivendas do Bosque da qual o proprietário é um professor de educação ambiental. Na maioria das vezes, quem ignora a conexão de esgoto também prefere não dar explicações sobre os motivos que o fizeram decidir por manter a fossa, mesmo tendo o serviço de esgoto à disposição. 

Mas, segundo a empresa concessionária do serviço de água e esgoto Águas Guariroba, um dos principais motivos para que a maioria das pessoas evite a conexão com a rede coletora de esgoto ainda é o valor da conta que pode ficar até 70% mais cara para o usuário. No entanto, o aumento dos gastos tem cálculos fundamentados na complexidade do sistema. "O tratamento de esgoto é mais oneroso do que da água. O usuário, muitas vezes, não entende o processo. Hoje existe um mundo subterrâneo além do asfalto. As pessoas não enxergam, mas tem toda uma infraestrutura grandiosa e complexa abaixo de nossos pés. São obras caríssimas que envolvem a construção e manutenção do sistema, custos com energia e produtos, com ampliação das estações. A pessoa tem que ver o todo. Ele está pagando proporcionalmente ao consumo, nem mais nem menos", resume Kamilo Reis Carnasciali, gerente de Engenharia da concessionária. 

O sistema de tratamento envolve desde a ligação domiciliar que sai da casa do usuário, as redes coletoras que vão levar esse esgoto para um ponto mais baixo, as estruturas elevatórias, até os interceptores de grande porte que levam todo o esgoto à estação de tratamento para então ser lançado novamente ao rio dentro dos parâmetros estabelecidos. 

Em 2003, eram 47 mil imóveis atendidos pela rede de esgoto em Campo Grande. Passados exatamente doze anos, este número saltou para mais de 214 mil imóveis. Isso representa mais de 80% dos moradores com acesso ao esgoto coletado e tratado. A ampliação do sistema de esgotamento sanitário foi de 29% para 60% em 2008 com o projeto Sanear Morena 1, alcançou 70% em 2013 com o Sanear Morena 2 e segue agora para a universalização com a etapa 3 que prevê investimentos na ordem de R$ 636 milhões. As obras já iniciadas estão subdivididas em 12 etapas e deverão ser concluídas em 2025, ano em que a empresa planeja atingir a totalidade dos habitantes. "Poucas cidades tem meta estabelecida e a gente já trabalha com a meta e com o investimento fechado para cumpri-la", afirma Carnasciali.

O projeto envolve a implantação de 2 mil km de rede coletora, implantação de 45 km de interceptores, 126 mil ligações domiciliares, 418 bairros atendidos, uma nova Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) e ampliação de mais duas ETEs. 

 

(In)Consequências das ligações factíveis

De acordo com o setor de engenharia da concessionária, os resultados de todo o trabalho poderiam ser muito melhores caso não existissem as ligações factíveis. A ociosidade afeta os investimentos. “As obras para universalização são feitas de forma escalonada e uma etapa financia a outra. A empresa não tem em caixa R$ 636 milhões disponíveis. É muito investimento em um espaço curto de tempo. Então, ela chega ao agente financiador e realiza o empréstimo com juros”, menciona Kamilo. Desta forma, para que o investimento seja viabilizado, é preciso que aconteça a adesão ao serviço. “O usuário aderindo, nós começamos a tratar o esgoto e isso gera receita, pagamos o financiamento e melhoramos os indicadores. Consequentemente, é liberado mais crédito para as próximas etapas. Sem a conexão por parte do usuário, ocorre a perda do poder de investimento”, destaca. 

Além de dificultar a viabilização de recursos para as obras, as ligações factíveis contribuem diretamente para a contaminação do lençol freático impactando a saúde pública. A Lei Federal 11.445, de 2007, que trata das regras e direitos do usuário na questão do saneamento, deixa claro que, onde há rede pública de água e esgoto, o morador deve se conectar. A partir do momento que ele decide manter uma fossa, ele está cometendo um crime ambiental. A Semadur (Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano) é a responsável pela fiscalização e realiza, juntamente da Águas Guariroba, um trabalho de conscientização sobre a necessidade de conectar-se à rede coletora. O órgão esclarece que sistemas alternativos como a fossa só é liberada quando não existe o sistema público de esgoto. Nos demais casos, se irregularidade não for sanada, o processo de notificação é encaminhado para a implantação da multa.

A relação entre saúde pública e saneamento é absoluta. Conforme o indicador DRSAI (Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado), publicado pelo IBGE em 2015, o número de internações por doenças diarreicas caíram 91% contra o aumento de 80% da ampliação da rede de esgoto. Enquanto em 2003, eram 157 internações hospitalares a cada 100 mil habitantes, em 2015 o número de internações não passou de 13. Os gastos totais com essas internações sofreram uma queda de R$ 48 mil por 100 mil habitantes em 2003 para R$ 10 mil em 2015.

"À medida que é ampliado o sistema, o índice de redução de doenças e internações reduz drasticamente. Deixamos de gastar com pessoas doentes e isso é bom para toda cadeia produtiva, a prefeitura gasta menos para tratar e o mercado, as indústrias e empresas deixam de perder um colaborador que fica doente, que fica afastado com atestado médico", associa Carnasciali.

Para Patrícia Franco, moradora do bairro Universitário e que tem a moradia conectada à rede coletora, o usuário não adere ao sistema por uma grave inconsequência. "Ao optar por uma fossa na casa dele, ele se torna um foco de doenças. Ele está contaminando o lençol freático e disseminando doenças. O benefício da conexão vai muito além de uma taxa, é a sua vida e a do outro que está em jogo", ressalta. 

 

Capital que mais investe em saneamento e despoluição dos rios

Um levantamento inédito lançado pela Folha de São Paulo em conjunto com o Datafolha neste ano eleitoral mostra quais prefeituras pelo Brasil entregam mais serviços básicos à população usando menor volume de recursos financeiros. O Ranking de Eficiência dos Municípios leva em conta indicadores de saúde, educação e saneamento para calcular a eficiência da gestão e apresenta dados de 5.281 municípios, ou 95% do total de 5.569 cidades. Campo Grande está localizada na 1.869º posição com escala de 0,480 pontos. A pontuação é classificada na cor verde que aponta "alguma eficiência" na gestão dos recursos. O dado leva em conta os componentes como saúde e educação, mas foi o setor de saneamento que elevou a posição da Capital no ranking. Enquanto a média do Brasil está em 0,567 pontos, o saneamento em Campo Grande apresenta 0,779 pontos. A pesquisa se baseou nos investimentos feitos em 2010, quando o atendimento de água alcançou 91%, a coleta de lixo domiciliar chegou a 99% e a cobertura de esgoto a 44%.

A Capital sobressai-se entre as gestões que usam melhor os recursos financeiros em saneamento e já tem como meta ser também a primeira capital a ter rios e córregos totalmente despoluídos. 

Com a universalização, a empresa garantirá à população cursos d'água urbanos com condições para peixes, pesca e até banho. "Hoje a gente faz monitoramento em conjunto com a prefeitura e os dados mostram que já estamos começando o processo de despoluição dos rios e a qualidade tem melhorado e, à medida que vamos aumentando a cobertura, o reflexo será ainda mais positivo", projeta Kamilo Carnasciali.

O gerente de engenharia da Águas Guariroba enfatiza que o tratamento feito pela empresa tem que ter entre 70% a 95% de eficiência. “Coletamos todo o esgoto e desde que atinjamos esse parâmetro, nós lançamos no rio. Na Estação Imbirussu, a eficiência de tratamento tem que atingir 95% porque a Bacia do Imbirussu é um rio classificado como rio puro e o lançamento de efluentes é muito mais restritivo. Nesse caso, utilizamos um sistema de última geração que é comparado ao que tem no Chile em questão de tecnologia. Hoje, podemos afirmar que o efluente tratado e lançado é mais puro do que o próprio rio”, compara.

Veja Também
Governo quer parcerias para concluir Aquário do Pantanal
Bombeiros resgatam homem que estava perdido em mata
Após velório em estádio, corpos de heróis da Chapecoense seguem para suas cidades-natal
Legado dos Jogos Olímpicos reforça segurança de MS
Deficientes físicos cobram acessibilidade e saúde
Bolívia denuncia funcionária que revisou e autorizou voo da Chape
Escola General Osório recebe Selo de Qualidade da Água
Policiamento reforçado cobrirá todas as regiões da Capital
Deputado propõe Frente Municipal de combate ao Aedes aegypti
square noticias uci
Últimas Notícias  
Diário Digital no Facebook
DothShop
DothNews
Rec banner - cirurgia.net
© Copyright 2014 Diário Digital. Todos os Direitos Reservados
© Copyright 2016 Diário Digital. Todos os Direitos Reservados
 Plataforma Desenvolvimento