Campo Grande •24 de Novembro de 2017  • Ano 6
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Valdelice Bonifácio | Terça, 22 de Julho de 2014 - 06h00Enquanto a Capital cresce, lagos viram depósito de areia e lixoCartões-postais da cidade são o retrato do impacto ambiental causado por uso desenfreado do solo e desmatamento

  
Lago do Amor é um dos principais cartões-postais da cidade, onde o assoreamento avança a olhos vistos (Foto: Victor Chileno)
  • Lago do Amor é um dos principais cartões-postais da cidade, onde o assoreamento avança a olhos vistos
  • Jacarés habitam Lago do Amor; ninguém sabe como eles chegaram ao reservatório, mas se adaptaram e hoje compõem a fauna do local (Foto: Victor Chileno)
  • Além do assoreamento do Lago, capivaras convivem com a sujeira que vem carreada dos córregos Cabaça e Bandeira (Foto: Victor Chileno)
  • Lagos do Parque das Nações Indígenas, nos altos da Avenida Afonso Pena, passaram por drenagem em 2011 e estão novamente assoreados (Foto: Kísie Ainoã)
  • Lagos do Parque das Nações Indígenas passarão em breve por drenagem, segundo informação do Imasul (Foto: Kísie Ainoã)
  • Crescimento urbano no entorno do Parque das Nações Indígenas contribuiu para o assoreamento dos lagos (Foto: Kísie Ainoã)
  • Lagos do Parque das Nações foram criados para contensão de sedimentos advindos de córregos e assim evitar cheias em outros pontos da cidade (Foto: Kísie Ainoã)
  • Um dos lagos do Parque das Nações já ficou conhecido como praia das capivaras, mas em breve haverá serviço de dragagem no local (Foto: Kísie Ainoã)
  • Capivaras são atração no Parque das Nações Indígenas e desfilam nas praias formadas graças ao assoreamento dos lagos (Foto: Kísie Ainoã)
  • Gerente de Unidade de Conservação do Imasul, Leonardo Tostes, explica que assoreamento dos lagos do parque já era previsível (Foto: Kísie Ainoã)
  • Retirada de sedimentos dos Lagos do Parque das Nações ocorrerá nos próximos meses; serviço está em fase de licitação (Foto: Kísie Ainoã)
  • Jacarés, capivaras, patos, garças e outras espécies convivem harmonicamente no Lago do Amor que hoje está ameaçado pelo assoreamento (Foto: Victor Chileno)
  • Quando criado, Lago do Amor tinha três metros de profundidade e agora está ameaçado pela invasão de areia e lixo vindos dos córregos (Foto: Victor Chileno)
  • Lixo que vem carreado dos Córregos Cabaça e Segredo invadem o lago do amo; todos os meses UFMS retira cerca de uma tonelada de lixo do local (Foto: Victor Chileno)
  • Assoreamento do Lago do Amor é consequência do uso desenfreado do solo e ainda do desmatamento (Foto: Victor Chileno)
  • Cheio de areia, Lago do Amor não consegue cumprir sua função de reservatório para evitar enchentes em outros pontos da cidade (Foto: Victor Chileno)
  • Situação de assoreamento e acúmulo de lixo no córrego piorou após loteamento urbano na região do Córrego Bandeira (Foto: Victor Chileno)
  • Paisagem de assoreamento nada mais é, segundo a UFMS, que o impacto ambiental do mau uso do solo e do desmatamento (Foto: Victor Chileno)
  • Poluição do Lago do Amor não está nos níveis críticos de 2004, mas assoreamento piorou muito (Foto: Victor Chileno)
  • UFMS encaminhou, no ano passado, ofícios para órgãos públicos ambientais denunciado situação do Lago e nunca recebeu resposta (Foto: Kísie Ainoã)
  • Pró-reitor de Infraestrutura da UFMS, Júlio César Gonçalves, assegura que UFMS tem feito a parte dela, mas o município não (Foto: Kísie Ainoã)
  • Júlio César explica que só limpar o Lago do Amor não resolverá o problema, é preciso aperfeiçoar Lei de Uso do Solo (Foto: Victor Chileno)
  • Lago do Amor, segundo pesquisadores da UFMS, poderá estar repleto de sedimentos em 24 anos (Foto: Victor Chileno)
  • Capivaras são vítimas da poluição devido à presença de lixo que chega ao Lago do Amor carreado dos córregos (Foto: Victor Chileno)

Se capivaras e jacarés pudessem falar, clamariam pela revitalização dos lagos que habitam em Campo Grande. Importantes reservatórios de água, criados principalmente para conter enchentes, estão assoreados em razão da grande quantidade de areia e entulho que chegam carreados de córregos da Capital. No Parque das Nações Indígenas, um dos lagos foi apelidado de "praia" devido ao acúmulo de sedimentos. No Lago do Amor, da Universidade Federal, a situação também é crítica. No primeiro caso, contudo, existe um plano de recuperação que está prestes a ser colocado em prática. No segundo, o problema é mais complicado, já que o Poder Público vive uma espécie de jogo de empurra de responsabilidades.

Localizado nos altos da Avenida Afonso Pena, o Parque das Nações Indígenas é um dos locais mais queridos e bonitos de Campo Grande. Ali foram criados lagos para conter sedimentos que poderiam entrar no Córrego Prosa e provocar enchentes em outras partes da Capital. No entanto, o processo de urbanização, com a construção de novos empreendimentos no entorno do parque, acelerou o assoreamento dos lagos. O governo do Estado já abriu licitação para contratar empresas que farão a limpeza, e esta não será a única medida. Estado e prefeitura realizarão juntos ações para conter águas pluviais que têm danificado córregos que formam o Prosa e consequentemente os lagos do Parque das Nações.

"Na verdade, esta situação já era esperada. Os lagos do parque foram criados com a previsão de limpeza a cada três ou quatro anos. A última vez que fizemos a dragagem foi em 2011", explica o gerente da Unidade de Conservação do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), Leonardo Tostes. A previsão é de que os lagos já estejam devidamente drenados até novembro deste ano. Além da drenagem, o parque receberá também outras melhorias como a construção de quatro parquinhos de diversão e sinalização nova. O investimento é parte do preparo para as mudanças que ocorrerão graças a um vultoso empreendimento que, quando pronto, será a grande atração do local: o Aquário do Pantanal, que está em edificação.

Porém, diferente da situação dos reservatórios do Parque das Nações, que uniu governo e prefeitura em ações a favor dos lagos e córregos, o Poder Público ainda não se entendeu sobre o Lago do Amor. O local, de beleza cênica encantadora, se tornou o retrato do impacto ambiental causado pelo uso desenfreado do solo e pelo desmatamento. O pró-reitor de Infraestrutura da UFMS e doutor na área de análise ambiental, Júlio César Gonçalves, exibe as cópias dos ofícios que encaminhou para os órgãos ambientais denunciando a situação do lago e pedindo providências. Ele nunca recebeu qualquer resposta.

O pró-reitor explica que o lago é um reservatório artificial construído na década de 1970 na confluência dos córregos Cabaça e Bandeira. "O objetivo era criar um reservatório para as cheias e evitar grandes enchentes nesses córregos. Hoje é uma Área de Preservação Permanente (APP), pela qual a universidade precisa zelar. Porém, ela não é a responsável pelos danos causados ao lago e ao trecho dos córregos Bandeira e Cabaça que passam dentro da instituição", considera. 

Em março de 2013, ele encaminhou ofícios para Ibama e Semadur e descobriu que um órgão delegava a responsabilidade para o outro e que ninguém tomava qualquer providência. A situação do Lago do Amor é de degradação em razão do assoreamento e da poluição que chegam através dos córregos Bandeira e Cabaça. Periodicamente, a UFMS limpa o reservatório. "Principalmente após as chuvas, a situação fica crítica. Retiramos uma tonelada por mês de lixo. E tem de tudo: fogão, cama, pneu, sofá, geladeira. Estamos gastando dinheiro público para retirar todo o lixo que vem dos córregos Bandeira e Cabaça, lançado por toda a cidade", salienta o pró-reitor.

Em 2004, após acordo celebrado com o Ministério Público e a prefeitura, o lago passou por dragagem e limpeza para retirar macrófitas (plantas aquáticas que crescem em ambiente poluído). Na ocasião, o lago estava contaminado pelo esgoto da cidade, situação que melhorou com a ampliação da rede coletora na Capital. Porém, o problema do assoreamento persistiu e se agravou em 2008, em razão da construção de grandes loteamentos na região do Bandeira. O professor critica a Lei de Uso do Solo permissiva e a falta de fiscalização aos empreendimentos. Ele explica que a drenagem do lago, por si, não colocará fim ao problema ambiental. O assoreamento será uma constante se medidas mais profundas não forem tomadas.

Na opinião dele, a cidade precisa aperfeiçoar a legislação de modo que fique proibido o desmatamento de várzeas de rios. Ele cita como exemplo a Avenida Interlagos, que foi edificada à custa de desmatamento de várzeas. Outro ataque grosseiro aos córregos Cabaça e Bandeira, segundo o professor, foram os loteamentos no bairro Rita Veira, sem a devida construção de galerias pluviais. "Basta chover e os sedimentos vão para o Bandeira." O zoneamento ambiental das microbacias dos córregos é outra necessidade, pois, conforme o pró-reitor, existem áreas que definitivamente não podem ser desmatadas.

Quando criado, o Lago do Amor tinha até três metros de profundidade em alguns pontos. Em recente artigo publicado sobre o assunto, o professor da UFMS, doutor em Engenharia de Água e Solo, Teodorico Alves Sobrinho alerta que o assoreamento do Lago do Amor é um problema ambiental grave. Pois o depósito de sedimentos no reservatório diminui a capacidade de armazenamento de água, facilitando a ocorrência de inundações.

"O processo está tão acelerado que em 24 anos o lago pode estar repleto de sedimento, caso não haja nenhuma intervenção corretiva", escreve o professor, que participou de pesquisas científicas sobre a situação do reservatório. O pró-reitor de Infraestrutura reitera que a UFMS tem feito tudo o que está a seu alcance pela preservação do lago e dos córregos, mas que sozinha não conseguirá enfrentar o impacto que impressiona a olhos vistos.

"Nós fazemos nossa parte, que é cuidar do lago e dos córregos, mas as comunidades que estão nas microbacias e o município não fazem a deles. É evidente que se a Justiça determinar faremos novamente a dragagem do lago, mas isso não é uma medida justa e não resolve o problema. A UFMS é uma vítima como o meio ambiente também é", enfatiza. A  reportagem entrou em contato com Ibama e Semadur e aguarda retorno.

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