Campo Grande •19 de Novembro de 2017  • Ano 6
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Valdelice Bonifácio | Quinta, 7 de Setembro de 2017 - 13h10Consulta pública decidirá endereço de estátua de ManoelPrefeito da Capital pretende ouvir população sobre local para instalar estátua

(Foto: Chico Ribeiro/Governo de MS)

Uma consulta pública definirá o local de instalação da estátua de bronze do poeta Manoel de Barros, confeccionada pelo escultor e cartunista campo-grandense Victor Henrique Woitschach, o Ique, segundo decisão do prefeito de Campo Grande Marquinhos Trad (PSD). A ideia é fazer a consulta por meio do site da prefeitura. Contudo, não foi anunciada qualquer data para o início da pesquisa.

A obra seria inicialmente instalada no canteiro central da Avenida Afonso Pena em um ponto que é considerado sítio arqueológico do Exército, por conta da presença de prédios e monumentos militares. Por essa razão, a instalação foi barrada por decisão do juiz David de Oliveira Gomes Filho, titular da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos. O magistrado, inclusive, usou poesia para justificar sua decisão, parafraseando e parodiando Carlos Drummond de Andrade. Ele determinou, sob pena de multa, que a Prefeitura da Capital escolha outro local para instalar a estátua.

“Será que ele (o Poeta) iria querer se meter em tamanha confusão, para ficar sentado no centro da cidade, em frente ao Hotel de Trânsito dos Oficiais?”, questionou o magistrado em seu despacho. O Ministério Público Estadual, que entrou com a ação para impedir que a estátua fosse colocada naquele local, argumentou que “O mito 'Manoel de Barros' não se harmonizaria com a história específica daquele local, mas não existiria oposição do Instituto (de História e de Geografia) a que se instalasse a estátua no mesmo canteiro, mais acima ou mais abaixo, fora daquele sítio”.

A Secretaria de Cultura teria dado um parecer favorável ao Município, mas o Instituto de História e de Geografia de Mato Grosso do Sul se posicionou contra a pretensão do Município, sob o argumento de que naquele exato local, existe um sítio arqueológico militar, representativo de parte importante da história brasileira e sul-mato-grossense.

Decisão poética  – O magistrado foi amplo uso da poesia em sua decisão. ‘E agora, Mané? Talvez Carlos Drummond de Andrade, no lugar deste juiz, começasse sua decisão assim: “E agora, Mané?”

“Evidentemente que este magistrado não tem intimidade com o querido Manoel de Barros para chamá-lo de “Mané”, mas quem sabe Drummond teria... Fico imaginando se o grande poeta permitiria uma escovação das suas palavras para tentar transformar o “E agora, José?” em “E agora, Mané?”, afinal de contas, as palavras escondiam Manoel de Barros sem cuidado e o encontravam onde ele não estava!”, escreveu David e continuou a poesia abaixo:

E agora, Mané?                         

A festa nem começou,
as luzes não acenderam,
o povo não chegou,
a homenagem parou,                                    
e agora, Mané?
e agora, você?
você que quer homenageá-lo,
você que quer proteger o patrimônio histórico,
você que faz obras,
você que faz processos,
e agora, você?
A base de concreto está sem estátua,
o Mané sem homenagem,
o sítio arqueológico militar sem respeito,
o homem sem reflexão,
a mulher sem compreensão,
e a noite esfriou,
o dia não veio,
não veio a utopia,
e tudo parou,
e tudo esperou,
e tudo judicializou,
e agora, Mané?
E agora, Mané?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
sua simplicidade – e agora?
Com a caneta na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer atirar no mar,
mas o mar secou;
quer ir para casa,
casa não há mais.
Juiz, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você abandonasse...
mas você não desiste,
você enfrenta, juiz!
Sozinho no escuro
qual bicho do mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você decide, juiz!
Juiz, para onde? 

Multa - A pena para o descumprimento é de R$ 100.000,00 em favor do Fundo Municipal do Meio Ambiente, cuja utilização pelo respectivo conselho ficará condicionada às despesas de manutenção ou de recomposição do patrimônio tombado (Canteiro da Av. Afonso Pena). O Município poderá apresentar impugnação ao cumprimento de sentença em 30 dias. A decisão poética no processo pode ser vista no arquivo abaixo:

Decisão sobre estátua Manoel de Barros.

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