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21 de novembro de 2019 • Ano 8
Diretor de RedaçãoUlysses Serra Netto
Campo Grande

Comunidade anseia por muito mais que energia

Nos imóveis inacabados e terrenos da empreiteira Homex, 2,4 mil pessoas vivem de forma improvisada

12 Jul2019Valdelice Bonifácio17h50
Wilson Vasques, um dos líderes da comunidade (Foto: Marco Miatelo)
  • Wilson Vasques, um dos líderes da comunidade (Foto: Marco Miatelo)
  • Lâmpada acesa do lado de fora da residência (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
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  • (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)

Na área invadida da empreiteira Homex, no Jardim Centro-Oeste, em Campo Grande, 2,480 pessoas vivem de forma improvisada, tanto dentro dos apartamentos deixados inacabados pela empresa, quanto nas moradias precárias construídas nas áreas no entorno. Nesta semana, a comunidade foi surpreendida com o corte das ligações clandestinas de energia elétrica, o que desencadeou um bloqueio na BR-163. O protesto durou quatro horas. Porém, as necessidades dos moradores vão muito além da energia elétrica.

Um dos líderes da comunidade, o mestre de obras Wilson Vasques, informa que na manhã desta sexta-feira, 12 de Julho, as famílias participaram de reunião com defensores públicos. Uma das possibilidades mover uma ação civil pública para regularizar o fornecimento de energia elétrica definitivamente. Porém, as famílias esperam contar com o fornecimento de energia de forma provisória durante o desenrolar da ação. “Eles ficaram de dialogar com a Energisa (concessionária de energia elétrica) e a prefeitura em busca de amenizar esta situação”, relata.

Conforme Wilson, os moradores procuraram a Energisa há cerca de um ano para propor que a situação fosse regularizada. Porém, nunca houve resposta. Na quinta-feira, 11, equipes da concessionária acompanhadas da polícia chegaram ao local e retiraram as ligações clandestinas. “Não esperávamos esse corte sem comunicação. É uma situação muito difícil.  Há idosos, deficientes, pessoas acamadas e gente que faz inalação diária, todos precisam de energia”, disse.

Percorrendo a comunidade, a reportagem verificou que em algumas moradias as ligações clandestinas já foram refeitas. Há lâmpadas acesas, inclusive, do lado de fora das casas em plena luz do dia. “Nunca houve nenhuma orientação das lideranças para que religassem a energia cortada pela concessionária. Isso sai do nosso controle. Se as pessoas têm necessidades, muitas vezes relacionadas à saude, não temos como barrar”, explica.

Além da questão da energia elétrica, a água é outra preocupação. Segundo Wilson, apenas 30% dos moradores têm ligação de água tratada. O restante usa água dos poços, o que ele considera perigoso, devido ao risco de contaminação. O atendimento em saúde pública também é insuficiente.

“O posto de saúde não tem médicos para atender a comunidade. E quando procuramos outras unidades de saúde, eles alegam que a gente não tem comprovante de residência, por isso, não somos atendidos. Estamos vivendo sem assistência do poder público”, reclama.

As ocupações aos imóveis inacabados e terrenos da Homex começaram há cerca de quatro anos, depois que a empreiteira, com dívidas, abandonou o canteiro de obras. Porém, a explosão do número de invasores ocorreu em 2017, quando mais de mil barracos chegaram a ser contados no local. Veja reportagem feita à época pelo Diário Digital.

Atualmente, boa parte das casas é de alvenaria erguidas sem observar normas de engenharia. Os ocupantes também estabeleceram comércios em quase todas as ruas. Há bares, mercearias, salões de beleza, lojinhas de roupas, borracharias e até lojas de materiais de construção.

O pastor João Vítor Centurião tem um salão de beleza unissex. “Sem energia elétrica ficou difícil de atender. Espero que coloquem os padrões de energia, queremos pagar e trabalhar”, explicou.

Vizinha ao pastor, a doméstica Marlene Aparecida de Souza relata as dificuldades de criar filhos, ainda pequenos, na incerteza de uma ocupação. “Dentro da minha casa, somos eu o esposo e cinco crianças. Esse tipo de acontecimento (corte de energia) deixa tudo complicadíssimo. Nosso desejo é que regularizem para que possamos pagar e usar. Não queremos nada de graça”, afirma.

Para o líder Wilson Vasques, a instalação dos padrões de energia elétrica independe da regularização dos terrenos, como alega a concessionária. “Não precisa ser assim. A contratação da energia pode ficar no CPF da pessoa, independente dela ser ou não dona do imóvel”, propõe.

Energisa – Na quinta-feira, a concessionária explicou que a retirada das ligações clandestinas foi feita para garantir a segurança da população e evitar acidentes. Nesta sexta-feira, 12, a empresa divulgou outra nota à imprensa sobre a ação. Veja abaixo:

Energisa informa que TODAS as ligações irregulares foram retiradas da rede elétrica. A equipe não voltou ao bairro depois da operação realizada no dia de ontem.

A concessionária explicou ainda que placas de segurança foram instaladas no local com alerta sobre os riscos de acidentes provocados pela intervenção na rede.

A empresa continua com o seu plano de contingência e monitoramento acionado para novas inspeções, caso sejam necessárias.

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