Campo Grande •27 de Março de 2017  • Ano 5
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Giselli Figueiredo, Especial para o DD | Quarta, 2 de Novembro de 2016 - 15h18Reintegração gera preocupação de indigenas em MSProcesso de reconhecimento como terra indígena foi solicitado para a FUNAI no ano de 1984, através do Conselho Tribal, querendo regularizar a posse do território

Não vamos entregar a única área que nossos jovens tem para lazer e esporte, para não se envolverem com drogas e outras atividades
Não vamos entregar a única área que nossos jovens tem para lazer e esporte, para não se envolverem com drogas e outras atividades (Foto: Giselli Figueiredo)

A posse por uma área onde se encontra o campo de futebol da Aldeia urbana ‘Aldeinha’ no município de Anastácio, tem gerado preocupação para as 215 famílias que vivem na comunidade. No dia 31 de outubro, desconhecidos começaram a jogar entulhos no local, dizendo que foi ordem dos atuais donos da área. A comunidade se revoltou e o assunto virou alvo de protesto.

Segundo o cacique da Aldeia, Eneias Campos da Silva, o procurador dos atuais donos, se apresentou como Elcimar e disse que tinha autorização para tomar posse do local. “Ele chegou aqui mandando jogar entulhos para que ninguém mais usasse o campo, não procurou as lideranças indígenas do local, não teve o mínimo de respeito com as famílias que aqui moram, fora não apresentou a procuração”, disse.

A situação causou revolta porque a prefeitura de Anastácio por inúmeras vezes tentou negociar uma permuta da área, o que houve recusa pelos atuais donos. Segundo o Secretário de Desenvolvimento do município, Thiago Sanches Alves Correa, todas as propostas da prefeitura foram rejeitadas. “A administração municipal atual já se propôs fazer permuta, cedendo terrenos em outras áreas para que o campo ficasse com a comunidade, inclusive com Projeto de Lei encaminhado à Casa de Leis de Anastácio, mas não houve acordo”, disse.

O Secretário propôs novo acordo para fazer essa troca, uma reunião foi marcada e caso não houver um consenso de ambas as partes, a justiça será acionada para buscar a desapropriação, já que os indígenas têm feito bom uso e cuidado da manutenção da área.

Os anciãos da comunidade afirmam que o local já foi um cemitério e estão enterrados vários descendentes, já que a Aldeia existe antes mesmo do município ser fundado e hoje moram aproximadamente 420 pessoas. O historiador Edmundo Pires, fez sua tese de mestrado pela Universidade Federal da Grande Dourados sobre a Aldeinha. Ele conversou com a reportagem e disse que indígenas habitam no local desde 1930, aproximadamente, mas que o processo de Territorialização Terena se iniciou a partir de 1984.

“José Coureiro da Costa comprou aquela área do Coronel Estevão Alves Correa junto com mais dois irmãos em meados de 1930, eu fiz toda a cadeia dominial no Cartório para minha tese, ele inclusive morou no local com os familiares, nos ‘moldes’ Terena, exercendo a territorialidade

Terena dentro daquele território, vivendo de 1933 a 1965, onde houve a criação de Anastácio, e o crescimento do município em volta da comunidade, fazendo José Coureiro e os irmãos lotearem a área para os familiares, parentes consanguíneos e agregados, que foram moradores que eles tinham como família”, contou.

Edmundo conta que como os irmãos foram envelhecendo e seus descendentes começaram a vender lotes na década de 1980. O processo de reconhecimento como terra indígena foi solicitado para a FUNAI no ano de 1984, através do Conselho Tribal, querendo regularizar a posse do território, já que a comunidade está ali há muito tempo, além de direitos de acesso a demandas como educação, saúde, inserção no mercado de trabalho que atualmente é realidade no local. “Leva tempo para essa regularização, teve área que demorou mais de 60 anos, por exemplo”, contou o historiador.

Sobre o campo ter sido um cemitério, segundo Edmundo, pode ser considerado reconhecimento de território tradicional, mas é necessário ser periciado por antropólogos para que seja constatado. “A liderança tem que solicitar via Ministério Público, aí o juiz vai pedir uma perícia antropológica e arqueológica. ”

O Diário Digital acompanhou um ritual no campo durante a noite desta segunda-feira (31). Em meio à dança e gritos de guerra o cacique reforçou: “É o campo da nossa comunidade que está em jogo, vamos brigar por ele, o ritual que você está vendo é um ritual de guerra, estamos prontos para guerra pela nossa terra”.

A Terena Évelin Hekeré presente no manifesto também não aceita a situação. “Nós vamos resistir! Não vamos entregar a única área que nossos jovens tem para lazer e esporte, para não se envolverem com drogas e outras atividades, queremos nossa área de esportes para a comunidade, aqui é nossa terra!”

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