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19 de maio de 2019 • Ano 8
Diretor de RedaçãoUlysses Serra Netto
Especial Mulher

‘A mulher precisa bastar-se’, diz Eurisdete

Primeira mulher a dirigir um caminhão no Ceasa revela sua inspiradora história de superação

15 Mar2019Valdelice Bonifácio14h00
Eurisdete superou doenças que poderiam ter sido fatais e é apegada à fé cristã (Foto: Marco Miatelo)
  • Eurisdete, sua mascote e as fotografias dos filhos e netos na sala da residência dela
  • Eurisdete superou doenças que poderiam ter sido fatais e é apegada à fé cristã (Foto: Marco Miatelo)
  • Ela não se conforma em ver as mulheres presas em suas rotinas (Foto: Marco Miatelo)
  • Eurisdete criou os filhos para amar e respeitar suas esposas (Foto: Marco Miatelo)
  • 'Quem me vê sorrindo não sabe tudo o que já chorei' (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Marco Miatelo)
  • (Foto: Arquivo Pessoal)
  • (Foto: Arquivo Pessoal)
  • (Foto: Arquivo Pessoal)
  • (Foto: Arquivo Pessoal)
  • (Foto: Arquivo Pessoal)
  • (Foto: Arquivo Pessoal)
  • (Foto: Arquivo Pessoal)
  • (Foto: Arquivo Pessoal)

Eurisdete Alves de Oliveira, de 61 anos, nunca teve medo de encarar posições que, por muito tempo, foram consideradas adequadas só para homens. E isso desde criança, tanto que aos 12 anos trabalhou como frentista em um posto de combustíveis. Outro feito notável é que ela foi a primeira mulher a dirigir um caminhão de legumes e verduras no Ceasa em Campo Grande. “Diziam: lá vai a sapatão da Euris. Eu nem ligava. Nunca fui grudada em homem nenhum”, afirma.

Se você se sentiu impactado com esse relato inicial, prepare o fôlego para o que ainda vem aí.  Euris é mais que uma desbravadora em trabalhos masculinos, é também uma mulher que sobreviveu à violência doméstica e a doenças que poderiam ter sido fatais. Ela ainda sente dores pelo corpo, mas não perdeu a vontade de se desafiar todos os dias.

A experiência profissional é longa e diversificada. Foi modelo profissional – sendo capa da Revista Capricho em 1986 -- publicitária, gerente de loja, funcionária de multinacional, técnica em contabilidade, produtora rural (foi nessa fase que ela levava a própria produção ao Ceasa) e operária em indústrias. Hoje é aposentada, assídua praticante de trilhas e se dedica ao trabalho como evangelista e missionária na igreja evangélica A Morada, localizada na Mata do Jacinto.

Euris casou-se pela primeira vez aos 22 anos e teve dois filhos. Ela ajudava o marido que atuava na área da construção civil. Nos anos 90 separou-se e casou-se novamente com um produtor rural, com quem teve mais um filho. Euris não gosta de lamentar o passado ou ficar remoendo mágoas, mas revela ter sido vítima de violência nos dois casamentos. Ela demorou mais do que deveria para dar um basta ao sofrimento devido à pressão social.

“Um quase me matou e o outro me bateu. Porém, sempre tem aquela cobrança, a gente fica pensando o que os outros vão dizer, o que a família vai dizer, outra separação! Até que eu me convenci que a sociedade não paga as minhas contas”, relembra. Agora, Euris vive sozinha e desfruta de liberdade e autoconfiança. “A mulher tem que bastar-se”, acrescenta.

Prova de fogo - A prova de fogo na vida de Euris veio em 2009 quando ela foi diagnosticada com câncer no escapular direito. Os médicos falavam em amputar o braço, o que a deixava desesperada. Pouco depois, sofreu com gripe H1N1 e dengue hemorrágica.

“Passei tudo isso longe da família. Eu não queria contar a ninguém”, relembra. E realmente passou. Euris recebeu a colocação 17 micromolas no escapular direito. “Elas (micromolas) fecharam os vasos que alimentavam o câncer e hoje tenho uma vida completamente normal”, conta. "Hoje digo que um câncer não pode parar sua vida. Viva no limite porque o amanhã pertence a Deus."

Depois de enfrentar as doenças, Euris começou a redescobrir a vida. “Até saltei de paraquedas”, relata. “Hoje, não perco uma aventura do grupo Trilha Extrema. É bom demais”, completa.

‘Mulheres estão presas’ – Se tem algo que deixa Euris entristecida é ver as mulheres prisioneiras. “Acho que elas ainda estão presas em situações. Elas têm que cuidar dos filhos, da casa e esquecem-se delas mesmas”, analisa.

Apegada à fé cristã, Euris afirma que a mulher precisa se enxergar como as heroínas da Bíblia tais como Rute, Ester e Raquel, fortes, determinadas e persistentes em seus propósitos. “Fico chocada em ver as mulheres sofrendo. Temos que ter consciência de que não adianta mais matar um leão por dia. Hoje, temos que encarar um dinossauro”, acredita.

“Acho que a mulher precisa se autoelogiar, se amar, valorizar as coisas que ela comprou com o próprio dinheiro dela. Enaltecer o que ela pode fazer sozinha”, aconselha.

‘Crei meus filhos para amar suas esposas’ – Euris não quer que outras mulheres passem pelos mesmos problemas que ela no matrimônio. Tanto que educou os três filhos para serem bons maridos. “Criei meus filhos para amarem suas esposas. Digo para eles aprenderem com o que aconteceu comigo”, revela.

Na avaliação de Euris, há mães que criam os filhos para serem machistas. “Tem aquelas que ainda dizem: ‘Você precisa dominar sua casa, dominar sua esposa.’ Eu mesma nunca vi minhas sogras darem conselhos para os filhos agressores. Tem mãe que sabe e nunca corrige o filho (...) Eu quis fazer tudo diferente.”

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